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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

JORNADA NAS ESTRELAS - CIDADE À BEIRA DA ETERNIDADE, o roteiro original de Harlan Ellison




Por Ray Junior

"Quando deixamos a Terra, cada um dos 450 tripulantes da Enterprise foi considerado estável.Mas já se passaram dois anos... dois anos de forte pressão. Realizamos sondagens mentais com frequência, mas sabemos que alguns estão mudados. Inclusive alguns podem ter se estragado: só descobriremos quando a rachadura ficar aparente."

Diário de bordo do Capitão James T. Kirk



Considerado um dos melhores episódios da série clássica de Star Trek, o roteiro de “Cidade à beira da eternidade”, penúltimo episódio da primeira temporada, gerou bastante controvérsia entre os envolvidos na criação da série na época. O roteirista Harlan Ellison foi alertado pelo criador da série Gene Roddenberry de que o roteiro necessitava de mudanças devido a restrições orçamentárias. Ellison não concordou e se afastou da série após Roddenberry e os outros roteiristas decidirem fazer as adaptações e gravar o episódio. Com o roteiro original em mãos, Ellison o inscreveu em diversos concursos e ganhou alguns prêmios.  A popularização massiva da série anos depois, somado a fama que o roteiro original alcançou, sempre gerou muitas especulações entre os fãs sobre qual versão seria superior.





Décadas depois, a editora IDW adquiriu os direitos de publicação de quadrinhos da franquia e negociou com Ellison a adaptação de seu roteiro, que ficou a cargo de Scott Tipton e David Tipton com arte de JK Woodward sendo publicada em 2014 em cinco partes. A versão nacional ficou por conta da editora Mythos, uma edição em capa dura com o belo acabamento gráfico que esse grande clássico da ficção científica merece.

Ellison e os colaboradores responsáveis pelo projeto. Da esquerda para direita: Scott Tipton, David Tipton, o editor Chris Ryall e JK Woodward.

Na trama, após perseguirem um oficial que trafica drogas dentro da Enterprise até um misterioso planeta, Capitão Kirk e seu grupo descobrem uma estranha cidade, e lá conhecem os guardiões do tempo que dizem que o planeta está no centro do fluxo temporal do universo. Através de um vórtice, qualquer período do tempo poderia ser alcançado e aproveitando ter sido momentaneamente esquecido, o fugitivo se lança no vórtice para escapar, sendo responsável por alterar toda a linha temporal em que Kirk e companhia estavam. Orientados pelos passivos guardiões, Kirk e Spock decidem viajar no tempo para seguir o rastro do criminoso, chegar antes dele no destino final e impedir a mudança. A dupla reaparece em Nova York nos anos 30 em meio a Grande Depressão e lá descobrem que a restituição de sua linha temporal dependerá de que uma enorme tragédia se cumpra.

The Nuncia: Piloto chapado conduzindo a Enterprise, lisergicamente  indo onde nenhum homem jamais esteve!

Viagem no tempo? E o alerta de vai dar merda já ta ligado no máximo

Sobre algumas diferenças entre os roteiros: No episódio, após um acidente na Enterprise enquanto investigavam o planeta dos guardiões, Dr McCoy é exposto a superdosagem de um medicamento antiarrítmico. Paranóico e agressivo, o doutor consegue escapar para o planeta abaixo utilizando a sala de teleporte e logo em seguida o vórtice, ocasionando a ruptura da linha temporal em que estavam. Kirk e Spock imediatamente vão atrás de seu companheiro para impedI-lo de causar o dano temporal. Com a adaptação, a perseguição a um oficial criminoso e traidor se transforma no resgate do companheiro momentaneamente insano. Ficou claro que inserir elementos que sugeriam o consumo de drogas dentro da Enterprise não agradou Roddenberry nem um pouco. Os homens e mulheres de sua utopia militar-socialista não poderiam sucumbir a problemas tão mundanos como dependência química e tentativas desesperadas de escapismo de um ambiente confinado e instável. 
As motivações tanto para Beckwith quanto para o Dr McCoy de interferir no fluxo temporal mesmo sem saber ao certo o que faziam são bem amarradas nas suas respectivas tramas, com destaque para o roteiro original em que o vilão da história em meio a tantas atitudes ruins, ainda é capaz de um ato de compaixão e empatia em vida.


"As vezes o indivíduo está louco na droga."
Oficial Beckwith metendo o loco dentro da Enterprise

Os diálogos entre Kirk e Spock no roteiro de Ellison parecem carecer da tão conhecida dinâmica entre ambos, mostrando por vezes demais um Spock muito passional e um tanto intolerante, enquanto no episódio isso não é um problema. Por outro lado, no roteiro original dá-se um merecido destaque a Ordenança Janice Rand, personagem muito pouco aproveitada na série. Ela tem um papel fundamental para que Kirk e Spock consigam cumprir sua missão, algo que nunca chegou perto de acontecer no episódio, no qual ela nem participa.


Que mulherão da porra!

Sobre a arte, JK Woodward fez um ótimo trabalho na adaptação do roteiro e criação de cenários, capturou bem a essência e a sensação é de estar mesmo assistindo a um episódio da série clássica. No entanto, peca em algumas cenas que sugerem muito movimento e os personagens se mostram estáticos ou engessados demais. Já as capas de Juan Ortiz são um espetáculo a parte, realmente impressionantes.



Harlan Ellison foi um escritor premiado que publicou inúmeros contos, novelas, roteiros para quadrinhos, cinema, televisão, ensaios, peças de tv e críticas. Nos deixou em junho desse ano, aos 84 anos e sua morte aconteceu durante o sono por causas naturais. No prefácio e posfácio escritos por ele na edição encadernada de "Cidade à beira da eternidade", mostra-se extremamente feliz e satisfeito de finalmente ver seu roteiro sair do papel e transposto para os quadrinhos, com direito a uma participação especial a la Hitchcock como um importante personagem no último capítulo. 
Harlan Ellison continuará vivendo através de suas obras e além disso tem a eterna gratidão de todo Trekker que já nasceu ou ainda nascerá.


Leonard Nimoy, Harlan Ellison e William Shatner no set de Star Trek em 1966




terça-feira, 26 de dezembro de 2017

OS PRÓPRIOS DEUSES, de Isaac Asimov, ou "A humanidade estaria mais segura sem a presença do homem"


  Por RICARDO CAVALCANTI

 

A humanidade necessita de novas fontes de energia. Hoje dependemos muito do petróleo e seus derivados, que nada mais é que um recurso limitado de energia e que é consumida em escala cada vez maior. Responsável por guerras, golpes, assassinatos, disputas políticas e econômicas, o “ouro negro” é fonte de imensurável riqueza para um grupo muito restrito. A melhor solução é buscar outras fontes de energia, de preferência, renováveis. No último século, buscaram-se novas fontes de energia que pudessem ser usadas em grande escala. Energia eólica, solar, hidrelétrica e biomassa, por exemplo, não são capazes de substituir o petróleo. A energia nuclear poderia assumir esse papel, mas sabemos que costuma causar sérios problemas. Pegando como base a questão energética que é um tema tão preocupante para a humanidade, Isaac Asimov nos traz o que é considerado um dos clássicos do autor: Os Próprios Deuses. Lançado originalmente em 1972, foi o vencedor do prêmio Nebula daquele ano e do Hugo Award no ano seguinte. De toda obra do Bom Doutor, este é um dos livros em que o sexo está mais presente. 

 

 

Antes da edição lançada pela Aleph, Os Próprios Deuses já havia sido lançado por aqui anteriormente com o nome de “O Despertar dos Deuses”, e sai agora com o seu título traduzido literalmente (The Gods Themselves). Este título se origina de uma frase do alemão Friedrich Von Schiller “Contra a estupidez, os próprios deuses lutam em vão?” em sua obra A Donzela de Orleans, que trazia uma diferente versão para a vida e morte de Joana d’Arc (Donzela de Orleans, ou Virgem de Orleans também são formas de se referir à heroína e mártir francesa). A história é dividida em três partes e cada uma recebe como título, um fragmento da expressão de Von Schiller. 

 

 

Na primeira parte, chamada de “Contra a estupidez...”, conhecemos Frederick Hallan, um físico nada excepcional, que se depara com a transmutação da matéria se transformando em energia diante de seus olhos. Por estar no local certo na hora certa, não precisou fazer nada, a não ser pegar para si a descoberta, aproveitando para ganhar fama, poder e dinheiro com a chamada Bomba de Elétrons - uma fonte de energia limpa, com custo muito baixo e que poderia suprir as necessidades da terra por centenas de anos. Benjamin Allan Denison, que trabalhava no escritório em frente, sabia das limitações de Hallan como cientista, acompanhou de perto a ascensão daquele cientista medíocre ao status de grande nome de seu tempo e ganhador do Prêmio Nobel, simplesmente por estar no lugar certo na hora certa. Peter Lamont, um até então admirador do Pai da Bomba Eletrônica, tenta provar que tal bomba pode ser muito perigosa e acaba encontrando muita resistência por parte de quem poderia fazer algo, mesmo que essas pessoas não se simpatizassem com Hallan, por conta de sua postura de arrogância e prepotência. 

 

 

Na segunda parte, chamada de “...os próprios deuses...” entendemos o motivo de este livro ser tão admirado. Com a primeira parte bastante ágil, a segunda gera certo estranhamento inicial. Mas logo esse sentimento se dissipa, ao entendermos um pouco os para-seres daquela realidade paralela. Asimov nos apresenta e desenvolve seres que são, principalmente, conceitos. Os Racionais, os Parentais, os Emocionais e os Duros são alguns dos seres que fogem do senso comum em retratar outros serem com característica humanoide. São seres que não possuem forma definida; podem transpassar a matéria e se fundir a um outro ser, por exemplo. São estes para-Seres que desenvolvem a maneira de trocar energia entre os universos. Também naquele universo, encontram um cenário parecido com o da terra. Enquanto uns se beneficiam da troca de energia entre as duas realidades, um desses seres sente o perigo dessa troca aparentemente inofensiva de energia entre as terras paralelas. A forma com que é feita a comunicação entre as terras paralelas, é praticamente uma poesia com toques de fantasia e ficção científica. 

 

Na terceira parte, estamos de volta à nossa realidade, no capítulo que recebe o nome de “...lutam em vão?”. A Lua já estava sendo colonizada, tendo pessoas que já nasceram em solo lunar e que nunca chegaram a pisar na Terra. Os Terráqueos são considerados uma civilização ultrapassada e de serem dotados de inteligência inferior. Esta nova sociedade que se firmou desenvolvendo costumes próprios foi ficando cada vez mais distante culturalmente da Terra. Benjamin Alan Denison, que foi desprezado e humilhado por Hallan, encontra na Lua uma forma de encontrar isolamento e distanciamento de tudo que havia acontecido, buscando um novo começo e encarando como uma oportunidade de esquecer tudo. Logo que chega conhece Selene, uma espécie de “garçonete-sensual-inteligente-cientista” (que parece mais uma personagem criada pela mente fantasiosa de algum adolescente, ou uma espécie de fetiche para satisfazer os sonhos secretos do próprio autor). Paralelamente, grupos clandestinos conspiradores que buscam fomentar a independência da Lua em relação à Terra (em tempos de Catalunha querendo se separar da Espanha ou sul do Brasil querendo se separar do resto do país e raciocínios sendo desenvolvidos separando argumentos de lógica, conseguimos contextualizar bem a sociedade em solo lunar). 

 

 

São três historias que se passam em momentos distintos, que se ligam pela influência de Hallan e sua Bomba Eletrônica através do tempo (e mundos), repletas de ambição, vaidade, egoísmo, arrogância e ganância, ignorando os riscos em lidar com uma energia tão poderosa. 

 

 

Asimov tratou de alguns temas em seu livro Escolha a Catástrofe (que pode ser encontrado com facilidade em qualquer sebo virtual) e entre eles, fala um pouco sobre a energia atômica. Não se trata de uma ficção, mas sim de uma reflexão sobre as várias formas com que a humanidade pode se extinguir e mostrando que algumas delas podem ser causadas pelo próprio homem. No capítulo em que ele classifica como “Catástrofes do Quinto Grau”, menciona os riscos de uma energia atômica. Mesmo o homem sabendo de todo o risco e potencial destrutivo deste tipo de energia, isso não o impediu de desafiar os limites provocando acidentes com efeitos devastadores, como em Chernobyl, o vazamento na usina de Angra e mais recentemente, em Fukushima, no Japão. Com tantas situações semelhantes, continuamos com a pergunta: “contra a estupidez, os próprios deuses lutam em vão?” 

 

Chernobyl

 



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

PIQUENIQUE NA ESTRADA, de Arkádi Strugátski + Boris Strugátski, ou "A dura vida dos catadores de lixo alienígena! Como vivem? O que comem? como se reproduzem?"




Por EDUARDO CRUZ


"Um piquenique. Imagine uma estrada no interior, uma clareira na mata, perto da estrada. Abrem-se as portas, e sai uma turma de jovens. Começam a tirar do porta-malas cestas com mantimentos, armam as tendas, acendem a fogueira. Churrasco, música, fotos... De manhã eles vão embora. Animais, pássaros e insetos da floresta, que assistiram horrorizados àquele evento noturno, saem de seus esconderijos. E o que eles encontram? Manchas do óleo que pingou do radiador, uma lata com um pouco de gasolina, velas e filtros usados. Do lado, estão jogados os panos sujos de óleo, as lâmpadas queimadas, uma chave de fenda que alguém esqueceu na grama. Nos rastros deixados pelo carro sobrou um pouco de lama que veio grudada de algum brejo no caminho... E, claro, há cinzas de fogueira, restos de comida, embalagens de chocolate, latas e garrafas de bebida, guardanapos amassados, bitucas, um lenço perdido, um velho jornal rasgado, um canivete de bolso derrubado por alguém, moedas, flores murchas do campo vizinho..."




A maioria das pessoas no mundo tem uma certa curiosidade a respeito daquela grande pergunta: "Estamos sós no universo?". 

Eu, pessoalmente, acho que não, e citando Carl Sagan, seria um tremendo desperdício de espaço se apenas a humanidade fosse a única espécie "inteligente" em todo o Universo conhecido. O Universo certamente produziu muita coisa melhor do que nós, e a julgar pelo fato de sermos os únicos neste sistema solar e em vários outros próximos, acho que alguém nos colocou de castigo, sozinhos com nós mesmos até que paremos de ser uma espécie tão idiota e até que estejamos maduros o suficiente para brincar com as crianças maiores. Mas ei, isso é só a minha opinião, uma insignificante hélice de DNA que vive entre outras bilhões de hélices de DNA nessa pedra isolada na Via Láctea...

Enfim, dados os problemas inerentes da natureza humana, não seria de se surpreender que ninguém lá fora faça contato com a gente. Do ponto de vista cósmico, devemos ser uma piada. Ou no mínimo irrelevantes.

A literatura de ficção científica tentou por décadas responder - por meio de muita especulação - a esta pergunta, e são muitíssimas as concepções de contatos com outras civilizações alienígenas, que vão dos belicosos marcianos de H. G. Wells em A Guerra dos Mundos aos benevolentes seres de 2001 - Uma Odisséia no Espaço, de Arthur C. Clarke. Maniqueísmos à parte, a maioria do que foi pensado neste sentido tem como fundamento uma certa motivação relacionável com a psicologia humana, seja para o bem ou para o mal. Mas e se nossos irmãozinhos do espaço fossem absolutamente insondáveis para nossa forma de pensar?

Os irmãos Strugatski, o tesouro do Sci Fi russo!

Os irmãos Arkádi e Boris Strugátski são os autores de ficção científica mais populares da Rússia. Escreveram a maioria de seus trabalhos a quatro mãos e não eram muito bem vistos pelo camaradinhas do regime porque sua prosa resvalava na crítica social. Muitos de seus trabalhos sofreram pesadas censuras dos burocratas que vivem de canetadas, inclusive Piquenique na Estrada, que é o livro mais popular dos irmãos Strugátski. Seus primeiros trabalhos tiveram bastante influência de outro notório autor: Stanislaw Lem, autor de Polaris (que qualquer dia desses a gente resenha aqui ;>)), mas depois de um tempo encontraram a própria voz, um estilo único de contar histórias. 

Piquenique na Estrada aborda o tema das visitações alienígenas de uma forma única e primorosa. Existem certos locais no planeta que foram visitados por alienígenas. Ninguém os viu, ninguém chegou a saber o que eles queriam, se vão voltar... Mas depois da Visitação, como ficou conhecido o fenômeno, os locais onde ocorreram estes contatos ficaram... estranhos. Dentro de uma área delimitada, existem anomalias físicas bastante peculiares, algumas inofensivas, outras bastante perigosas: Nestas áreas afetadas pela Visitação, ocorrem fenômenos bizarros, como a refração da luz e a projeção de sombras não obedecerem às leis da física, pequenos pontos com gravidade tão intensa que podem esmagar qualquer coisa que entre no perímetro onde a anomalia ocorre, bem como áreas onde a temperatura é tão alta que pode carbonizar quem tenha o azar de entrar na área em questão, entre muitos outros perigos bizarros inexplicáveis. 

Com a Zona é assim: voltou com mercadoria, milagre; voltou vivo, sorte; foi ferido à bala pela patrulha, que bênção; e o resto é destino...

Logo, circular dentro da Zona é morte quase certa a cada passo dado. E quem iria querer se aventurar em um lugar assim? Isolem e evacuem a área e vida que segue, certo? 

Errado!

Além das anomalias físicas os estranhos visitantes deixaram para trás estranhos objetos, e alguns deles a humanidade não consegue nem começar a compreender para que servem ou como funcionam. Outros, mesmo sem se ter certeza de sua função original, propiciaram pequenos saltos tecnológicos à humanidade. Os governos dos países onde ocorreram as Visitações criaram institutos com o objetivo de estudar tais artefatos, mas como é da natureza humana, sempre tem alguém passando algo por debaixo dos panos. Por isso existem os Stalkers, indivíduos que arriscam a vida (e a própria capacidade de gerar descendentes saudáveis em alguns casos!) entrando ilegalmente dentro das Zonas para subtrair alguns desses objetos e vendê-los a quem pagar mais.
E, de repente, do nada, uma sensação de desespero tomou conta de seu interior. Nada adiantava. Tudo era em vão.  Meu Deus, pensou ele. Nós não vamos conseguir nada! Não vamos conseguir segurar, nem sequer parar essa onda! Não há força capaz de conter uma inundação, compreendeu, apavorado. E não porque trabalhamos mal ou porque o inimigo seja mais hábil ou mais esperto. Não. É porque o mundo é assim. O ser humano é assim! É da natureza humana. Se não fosse a Visitação, seria outra coisa qualquer. O porco sempre achará lama para chafurdar...

Apesar de isso ter ocorrido uma meia dúzia de vezes ao redor do planeta, o livro foca a Zona na cidade de Harmont, no Canadá, e em Redrick Schuhart, um desses Stalkers. Existem breves relatos de outras Zonas no livro, mas bem vagos, apenas o suficiente para saber que o clima de medo e incerteza é o mesmo, não importa onde seja a Zona. Os riscos também são os mesmos. E os Stalkers sempre tentam a sorte em troca de $$$. Falando em vago, os Strugátski cultivam uma prosa com o pé justamente nesta condição, o que deixa muitas perguntas a serem respondidas pelo próprio leitor, como o porquê das Visitações; os objetos foram abandonados ou deixados de propósito, como se estivéssemos sendo estudados? será o início de uma invasão? ou sequer fomos notados como "fauna local" nessa breve visita de habitantes de mundos distantes? Aliás, essa última pergunta faz até uma breve ponte com o Cosmicismo de H. P. Lovecraft, uma vez que o desprezo e irrelevância da humanidade neste universo de Piquenique na Estrada são bem semelhantes à humanidade retratada por Lovecraft...




E sobre o "Inteligente" entre aspas lá em cima, no começo do texto? o livro tem uma passagem bastante interessante onde dois personagens tentam definir o que é Inteligência, sem sucesso. Deve ser porque são humanos, e humanos não têm lá muita intimidade com esse conceito rs.

(...) E quanto à idéia de que o ser humano, diferentemente de outros animais, sente uma incontrolável necessidade de adquirir novos conhecimentos? Li sobre isso em algum lugar.
 - Eu também. O problema é que o ser humano, pelo menos um ser humano comum, facilmente supera essa sua necessidade de adquirir conhecimentos. A meu ver, essa necessidade nem mesmo existe. Há uma necessidade de entender, mas para isso são necessários conhecimentos. A hipótese da existência de Deus, por exemplo, é uma excelente oportunidade de entender absolutamente tudo sem adquirir qualquer conhecimento. Oferece para o ser humano um sistema simplificado de mundo e explica tudo com base nesse modelo simplificado. e há certas fórmulas decoradas junto com a assim chamada intuição, a boa e velha esperteza cotidiana e um pouco de bom senso...

Com relação a adaptações, há duas dignas de menção: o filme e o game inspirados em Piquenique na Estrada. O filme inspirado pelo livro foi dirigido pelo cineasta russo Andrei Tarkovski com o título de Stalker, embora o roteiro, feito pelos próprios Strugátski, tenha muitas modificações em relação ao livro, mas mantendo alguns diálogos e a idéia de uma "Zona de Exclusão", onde há algo que poderia realizar desejos (no filme, seria um quarto). O filme tem uma fotografia memorável e cores sensacionais, em algumas cenas chegando a lembrar uma pintura em sépia. Belíssimo!




Stalker (1979), de Andrei Tarkovski.
Completo e legendado.


Nos anos 2000 foi feita uma série de jogos de tiro em primeira pessoa e survival horror chamada S.T.A.L.K.E.R., inspirada tanto no livro dos Strugátski quanto no filme de Tarkovski, mas com algumas pequenas diferenças: as tais Zonas de Exclusão seriam decorrentes do acidente nuclear de Chernobil, e dentro delas estranhos fenômenos ocorrem. Existem cerca de quatro jogos da série S.T.A.L.K.E.R.    

 Gameplay de S.T.A.L.K.E.R. : Shadow of Chernobyl 

O melhor de tudo é esta edição que a Aleph lança aqui em solo brasileiro este ano é o livro NA ÍNTEGRA, sem os estúpidos cortes das edições russas originais. O livro tem um prefácio de Ursula K. Le Guin, e um posfácio de 20 páginas por Boris Strugátski, onde ele explica o tortuoso processo de publicação de Piquenique na Estrada, com os sucessivos cortes e censuras impostos pelos órgãos burocráticos do governo russo.

A FC se presta facilmente à subversão imaginativa de qualquer status quo. Burocratas e políticos, que não podem se dar ao luxo de cultivar a imaginação, tendem a presumir que são só bobagens e armas de raios, coisas de criança. Para atrair a fúria do censor, talvez um escritor precise ser tão obviamente crítico da utopia quanto Zamiátin em Nós. Os irmãos Strugátski não eram óbvios, e nunca (até onde vai meu conhecimento limitado) diretamente críticos das políticas do seu governo. O que eles fizeram, que na época achei tão admirável e ainda acho, foi escrever como se fossem indiferentes à ideologia - algo que muitos de nós, escritores nas democracias ocidentais, tínhamos dificuldade de fazer. Eles escreviam como homens livres escrevem.
 Ursula K. Le Guin, no prefácio da edição da Aleph

Quem espera um livro cheio de pirotecnias, artefatos e raças alienígenas estranhas deve reavaliar suas expectativas: o foco aqui é apenas o ser humano, frente a um universo inteiro de conceitos que ele sequer é capaz de começar a compreender, e o impacto de objetos alienígenas na sociedade humana. A crítica ao capitalismo fica evidente no próprio fato de existirem Stalkers e todo um mercado negro de interessados em adquirir tais artefatos. Piquenique na Estrada é um livro que, estranhamente, parece sofrer o efeito de algum estranho campo de distorção temporal: rápido de se ler, mas bem denso nas questões abordadas. Mais um clássico da ficção científica que finalmente ganha uma bela versão nacional. Aprecie sem moderação, mas muito cuidado onde pisa enquanto vaga por essa Zona, e cuidado com a esfera dourada: você pode conseguir exatamente o que deseja...



quinta-feira, 16 de novembro de 2017

AS BRIGADAS FANTASMA, de John Scalzi, ou "A guerra continua!!!"







Por EDUARDO CRUZ





"A tecnologia humana era boa, e no quesito arsenal os seres humanos estavam tão bem equipados quanto a grande maioria de seus adversários. Mas a arma que importa no fim das contas é aquela que fica atrás do gatilho."


E A GUERRA CONTINUA!

Depois de um hiato grande demais pra quem amou o Guerra do Velho logo nos primeiros capítulos, a Aleph finalmente publicou o segundo volume da série, As Brigadas Fantasma. O livro retoma a premissa principal da série, onde acompanhamos um conflito travado entre a humanidade e diversas espécies alienígenas pelo controle do maior número possível de planetas com condições propícias para colonização. Como não há muitos planetas desse tipo espalhados pelo universo, cada espécie quer garantir que aquele território conquistado permaneça seu! Então já sabem, né? É GUERRA!



Neste segundo volume da série acompanhamos o soldado das Forças Especiais Jared Dirac, desde o momento de seu nascimento. Clonado a partir das células de um possível traidor, a Federação Galática de Defesa cria Dirac a princípio para tentar descobrir o paradeiro e as intenções do dono do genoma original, na perspectiva de que a personalidade do doador se replique em seu clone, assim emulando o raciocínio do traidor a fim de localizá-lo e capturá-lo. Como a princípio isso não sai como o esperado, Dirac termina por ser incorporado a um pelotão das Forças Especiais liderado por ninguém menos que Jane Sagan, uma das protagonistas do livro anterior. Em As Brigadas Fantasma vemos um lado do conflito que foi abordado apenas perifericamente em Guerra do Velho: A rotina e treinamento dos soldados das Forças Especiais, clones modificados, gerados a partir do material genético dos recrutas idosos que morrem antes de ganharem seus corpos modificados para travarem as batalhas das FCD. Esses corpos, pelo fato de seus doadores originais morrerem antes que a transferência de consciência seja realizada, são verdadeiras tabulas rasas, criaturas sem passado engendradas com apenas um objetivo: proteger os colonizadores humanos universo afora. Lutar e morrer. No decorrer do livro, esse detalhe da trama evoca questões éticas semelhantes às que Mary Shelley aponta em Frankenstein, no que diz respeito à responsabilidade quanto à criação de vida artificial - aliás, a obra de Mary Shelley, bem como seus derivados pela cultura pop são brevemente citados em As Brigadas Fantasma


"Depois de assistir a Star Wars, todo mundo queria um sabre de luz e ficou irritado ao saber que na verdade a tecnologia para produzi-los não existia. Todos concordaram que os Ewoks deveriam morrer."


Scalzi referencia e homenageia suas influências de forma muito pontual desde Guerra do Velho, chegando a mencionar neste segundo livro o Tropas Estelares - o livro E o filme! -, notória influência do autor na criação da série, o que é algo bastante honesto da parte de Scalzi, visto que, fora alguns conceitos científicos que ele desenvolve ao longo da série, nada ali é exatamente original, mas o seu trunfo está em como opta por contar sua história. Apesar de Dirac não ter o carisma de John Perry, o protagonista do livro anterior, ele é interessante a seu modo e carrega a reboque questões filosóficas acerca de livre arbítrio, a natureza da consciência e do "eu".

 "As Forças Coloniais de Defesa descobriram, para seu intenso desgosto, que muitos de seus seres humanos levemente modificados ("levemente" sendo relativo) não ficavam muito felizes ao descobrir que eram criados como uma plantação de buchas de canhão e se recusavam a lutar, apesar dos melhores esforços de doutrinação e propaganda possíveis para persuadi-los. Humanos não modificados ficavam igualmente escandalizados, pois a decisão parecia mais outra medida eugênica por parte do governo humano, e o curículo de governos amantes da eugenia na experiência humana não era exatamente estelar."




Assim como em Guerra do Velho, Scalzi continua a desenvolver sua ciência maluca, e entre tantas raças alienígenas, armas, tecnologioas e biomodificações o destaque da vez fica para os Gameranos (sim, uma homenagem ao Kaiju japonês Gamera!).

À direita Gamera, e à esquerda, um tal de.... Gojira?

Essa geração de soldados das Forças Especiais foi projetada para sobreviver no vácuo espacial sem nenhum tipo de aparato, sendo inclusive a primeira geração de soldados a possuírem seus BrainPals, o computador interno que os soldados das Forças Coloniais de Defesa utilizam, em forma orgânica! O design desses humanos modificados lembrou muito algo que o geólogo e paleontólogo escocês Dougal Dixon já havia concebido em seu livro Man After Man: An Anthropology of the Future. O livro, que é um bestiário especulativo sobre os caminhos evolutivos do ser humano daqui a alguns milhões de anos trazia, entre vários outros exercícios de imaginação O Vacuumorph, um derivado do já distante Homo sapiens biologicamente apto a viver no espaço!

"Se conseguirem encontrar uma maneira de procriarmos naturalmente, teremos uma nova espécie: Homo astrum, que pode viver entre os planetas. Não teremos de lutar com ninguém por propriedade. E isso quer dizer que os seres humanos vão vencer."

Ilustração de Man After Man: An Anthropology of the Future





Como eu disse lá em cima, Scalzi pode não ser o cara mais original da Ficção Científica atual, mas compensa isso com uma narrativa divertida!


Ilustração de Man After Man: An Anthropology of the Future


Como no livro anterior, a escrita de Scalzi continua bastante leve e fluida, um verdadeiro vira páginas! eu li  Guerra do Velho em três dias, mesmo com toda a minha rotina e as leituras paralelas, e com As Brigadas Fantasma não foi muito diferente, apesar de alguns momentos que perdem o fôlego, e são um pé no freio em uma leitura que estava a 100 por hora minutos antes. Nada que faça o leitor abandonar antes de terminar, mas o ritmo mais lento da continuação em relação ao primeiro é evidente. John Scalzi - pelo menos nessa série da Guerra do Velho, não li mais nenhum outro livro do autor - consegue contar uma história com um bom ritmo e ao mesmo tempo manter a profundidade de seus temas: questionamentos como ética no uso de tecnologias avançadas, bem como questionamentos a respeito de bioética e transhumanismo, os elementos que fizeram de Guerra do Velho um livro tão singular e inteligente, permanecem aqui, aprofundando questões como os corpos clonados e/ou radicalmente modificados do primeiro livro, e também iniciando novas discussões, como "Que senso de identidade de alguém clonado pode desenvolver?", quase como se Scalzi estivesse ajudando a preparar a humanidade para problemas que ela ainda não tem. AINDA. Mas ei, foi exatamente isso que Mary Shelley fez em Frankenstein! e olhem pra gente agora, clonando humanos em segredo enquanto o resto da humanidade olha para o outro lado, assistindo Master Chef e Ídolos ovelhas!




"– […] Não vá me dizer que você é feliz de ser consciente. Consciente de que foi criado para um objetivo que não era a própria existência. Consciente das lembranças da vida de outra pessoa. Consciente de que seu objetivo é apenas matar pessoas e coisas que a União Colonial aponta para você. Você é uma arma com um ego. Seria muito melhor sem o ego."

Pra quem ainda não conhece, vale a pena dar uma olhada na nossa resenha de Guerra do Velho também. Quem curte ficção científica, ou mesmo quem apenas procura uma boa história com situações limite e muita ação para passar o tempo, saibam que ainda dá pra ingressar nesse pelotão! a Aleph publicou apenas dois volumes da série no Brasil até o momento (num total de seis), e o primeiro ainda é fácil de encontrar por aí. Então, não sei vocês, mas eu permaneço nessa guerra até o fim! QUEM ESTÁ COMIGO????  


EU NÃO OUVI VOCÊS, VERMES!!!!

 




quinta-feira, 9 de novembro de 2017

ANDROIDES SONHAM COM OVELHAS ELÉTRICAS?, de Philip K Dick, ou "Você Realmente É Quem Pensa Que É?""






Por RICARDO CAVALCANTI


Philip K. Dick é O CARA! Não é a toa que ele é um dos autores “preferidos da casa” aqui na Zona Negativa (como diria o “Reverendo” Fabio Massari, nos bons tempos da MTV). Além disso, é um dos autores de ficção científica com mais adaptações de suas obras para o cinema. Mesmo quem nunca leu nenhum de seus livros ou contos, mesmo sem saber certamente já teve contato com algumas das inúmeras produções cinematográficas que saíram das páginas e da mente criativa do autor. Duvida? O Vingador do Futuro, Minority Report, O Pagamento e O Homem Duplo são apenas alguns desses exemplos. 
 



Como se não bastasse o cinema, agora a TV está começando a descobrir que as histórias de PKD podem também ser adaptadas em formato de série. Já está na segunda temporada a série The Man in the High Castle, baseado no livro O Homem do Castelo Alto, que mostra uma realidade alternativa em que os nazistas venceram a segunda guerra mundial. Além disso, uma nova série acabou de estrear, chamada Philip K. Dick’s Eletric Dreams, em que os episódios são baseados em alguns de seus contos. Pelos primeiros episódios, a série se mostrou bastante promissora. 
 



Apesar de Philip K. Dick ser um dos nossos autores favoritos aqui no Zona Negativa, não entendo o por quê de não termos falado sobre ele ainda. Uma omissão inexplicável e imperdoável que se resolve agora trazendo um dos livros mais conhecidos do autor e que também serve muito bem como porta de entrada para esse mundo que Dick construiu. Seu livro Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? ficou famoso por ganhar uma excelente adaptação nas mãos do diretor Ridley Scott, batizada de Blade Runner – O Caçador de Andróides. Blade Runner, juntamente com 2001: Uma Odisséia no Espaço, se tornou umas das mais respeitadas obras de ficção científica da história do cinema. Assim como o livro de Arthur C. Clarke e o filme de Stanley Kubrick se fundem e se completam, o mesmo ocorre com o universo estabelecido por Philip K. Dick, que se amalgama com a visão do diretor Ridley Scott.




Em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas acompanhamos Rick Deckard, que é um caçador de recompensas que trabalha para a polícia. Seu sonho de consumo é poder comprar um animal de verdade, que lhe renderia status perante a sociedade. Sua esposa passa boa parte do tempo no emulador de emoções (seria uma forma de camuflar seu notório quadro depressivo, ou uma maneira de programar o seu “cérebro” de androide?), além de ficar boa parte do tempo assistindo Buster Gente Fina, que é uma espécie de programa de variedades em que o apresentador parece tudo, menos humano (assim como se vê em qualquer programa de auditório dominical, por exemplo ;>)). 
 



A história se situa depois da Guerra Mundial Terminus, que ninguém mais lembrava quem venceu ou quem perdeu. A Terra ficou coberta por uma poeira tóxica, fazendo com que aos poucos os animais começassem a morrer até se tornarem praticamente extintos. Marte é colonizado e a alta casta da sociedade é incentivada a migrar para colônias interplanetárias, recebendo um androide orgânico (como os modelos T-800 de O Exterminador do Futuro) como forma de incentivo e para lhes auxiliar no que for necessário. Lá, quem faz o trabalho pesado são os imigrantes ilegais, digo, os androides construídos para este fim.




Os androides não são permitidos na Terra, relegados a realizar os trabalhos a que forem designados nas colônias. Com a chegada ao mercado de um novo modelo batizado de Nexus 6, muito mais avançados tecnologicamente, a tarefa de distinguir entre humanos e robôs fica muito mais complicada, por conta de sua impressionante semelhança física com os humanos. Quando começam a tomar consciência de suas reais capacidades e a perceber e entender a realidade em que vivem, alguns fogem para a Terra a fim de viver como humanos, se beneficiando dessas características físicas. Após a fuga de alguns desses andróides, Deckard é designado para caçá-los, e é quando a história de desenrola.




Durante todo o desenrolar da narrativa, o que pulsa em nossas cabeças são questionamentos do tipo: O que diabos, exatamente, é a humanidade? Ela pode ser emulada? ser humano é nascer humano? Gostos, vontades, desejos, sonhos, ambições... Se somos a soma das coisas que vivemos e experimentamos, no que nos transformaríamos se memórias artificiais fossem implantadas em nossas mentes? Não teríamos como saber que não são lembranças verdadeiras! Você saberia afirmar com certeza absoluta que você é um ser humano, e não um androide com memórias implantadas para pensar que é um humano??? Você saberia distinguir o que é real? ou melhor, saberia definir O QUE é realidade? Esses são os questionamentos que costumam permear as histórias de Philip K. Dick e isso é justamente o que torna suas histórias tão fascinantes (e indigestas!).
 


Seria Deckard um androide tentando ser cada vez mais humano? Seria ele um humano que não tem mais certezas de sua própria humanidade? A pergunta do título, que no primeiro momento soa um pouco estranha e sem sentido, faz com que durante a leitura, criem-se mais questionamentos que respostas. Não se pode afirmar categoricamente que Deckard é um androide, nem que ele é humano. O próprio personagem não tem essa convicção. Seria a consequência de novas memórias implantadas? Seriam por conta de uma nova programação? Ou será que ele estava simplesmente esgotado demais, física e mentalmente, para não conseguir distinguir entre o que é real e o imaginário? Estaria ele, como androide, emulando o comportamento humano? Pode-se dizer que sim. Estaria ele, como humano, se aproximando mais do comportamento de um androide? Também pode-se dizer que sim! Independentemente da resposta, o que vemos é um ser com suas convicções abaladas. Seja ele humano ou androide. 
 



Para aqueles que buscam uma história cheia de tiros, explosões, com muita ação e correrias vertiginosas pelo futuro, tendo um protagonista sendo a síntese do conceito de super-herói, esse não é o livro para você. Ou melhor: talvez esse não seja o autor para você. As ações e correrias vertiginosas acontecem dentro da psique dos personagens. Philip K. Dick nos tira da nossa zona de conforto, nos entregando uma história sensacional de um homem em seu labirinto psicológico e sua fuga constante para evitar conseguir descobrir quem é (ou o que é).




Este é o tipo de livro que cresce a cada leitura. Cada vez você volta àquele cenário, pode perceber mais sutilezas e nuances do texto, te fazendo imergir cada vez mais naquele ambiente e, consequentemente, na mente do autor. Questões filosóficas, ideologias religiosas, desejo por uma ascensão social, inconformismo com situação degradante que lhe é imposta, a busca por uma nova vida em um outro lugar são algumas das questões fazem pano de fundo para a história. Talvez a única coisa que possa ser considerada essencialmente errada na obra (não por culpa de PKD), é que Deckard identifica quem é e quem não é humano através da capacidade de mostrar empatia. Hoje está cada vez mais claro que conseguimos identificar o humano através do ódio. Afinal, o ser humano é o único animal capaz de odiar. O ódio que segrega e agride covardemente é o mesmo que une alguns grupos, como vimos em Charlottesville ou na reação a qualquer postagem no Facebook relacionada a questões de direitos humanos, por exemplo. Mas isso não é discussão para o momento.



Para comemorar os 50 anos do lançamento de uma das obras mais icônicas de Philip K Dick, a Editora Aleph resolveu dar um tratamento caprichado nesta nova edição. Com acabamento em capa dura, com uma bela sobrecapa envernizada e recheado de extras e ilustrações de diversos artistas (como Dave Mckean, Elena Gumeniuk, Bianca Pinheiro, Danilo Beyruth e Gustavo Duarte, por exemplo), além de um texto analisando os vários cenários pós-apocalípticos criados por PKD. Certamente vai fazer a alegria dos admiradores do autor e vai servir como um ótimo cartão de visita para os que ainda não o conhecem. 
 



Neste ano se comemoram também os 35 anos do lançamento da adaptação cinematográfica e por conta disso, foi lançada a continuação da história do filme de 1982. Confesso que encarei com muito ceticismo essa ideia. Mas felizmente acabou se mostrando um ponto fora da curva, revelando uma obra como se vê pouco hoje em dia. Além de possuir uma fotografia de encher os olhos, o filme é cheio de sutilezas e chega a tocar temas delicados, como escravidão e trabalho infantil. O que se pode dizer é que o filme é no mínimo corajoso, por escapar da armadilha de tornar a continuação uma franquia seguindo uma fórmula de fácil assimilação pelo grande público. Assim como o filme anterior, Blade Runner 2049 não foi bem nas bilheterias. O que não é nenhum demérito, pois o melhor filme de 2015, Mad Max: Estrada da Fúria, também foi um fiasco nas bilheterias, principalmente se compararmos com o seu custo. Mas como diria Marty McFly: “Acho que vocês ainda não estão preparados para isso, mas seus filhos vão adorar!






Agora corra para contemplar os Rios-C cintilando na escuridão junto ao Portal de Tannhauser, antes que tudo se perca no tempo, como lágrimas na chuva.