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domingo, 13 de agosto de 2017

CHOQUES ALIENÍGENAS, de Alan Moore + Jamie Delano + Alan Davis + Jim Baikie, ou “Como os aliens britânicos invadiram nosso planeta!!!!”







Por EDUARDO CRUZ


Olá, macacos da Terra! Viemos em paz para informar que a invasão foi concluída com sucesso pela Mythos! A editora acaba de lançar o encadernado Choques Alienígenas, que compila as séries D. R. & Quinch, juntamente com Skizz, encerrando a publicação dos trabalhos mais relevantes do início da carreira de Moore para a revista 2000AD nos anos 80.





Mas do que se tratam essas duas séries?

Bom, no mercado britânico de HQs, é de praxe que roteiristas iniciantes entreguem trabalhos curtos (afinal, que editor seria louco a ponto de comprometer espaço em um título com uma série longeva feita por um roteirista/artista que ainda não se provou apto ou experiente para segurar um título seqüencial por um tempo prolongado ou indefinido???), e com Moore não foi diferente: após se tornar um dos famigerados robôs-roteiristas da equipe da 2000AD, ele ficou por muito tempo a cargo dos Future Shocks, uma seção que trazia histórias curtas dentro da revista, sempre com o foco na ficção científica, a alma da 2000AD. Deveria ser só aquela história curta (aliás, a primeira desse encadernado) mas a popularidade foi tão grande que ganharam uma série semi regular.









Após várias histórias curtas divertidíssimas dentro dos Future Shocks (que inclusive, também já foi publicado completo no Brasil, também pela Mythos, e que já resenhamos AQUI!), que tinham de 4 a 6 páginas, Moore já ansiava por uma série um pouco mais longa, onde pudesse esticar seu fio narrativo ao máximo e desenvolver melhor, tanto os personagens quanto as situações em que ele os colocaria. Até que no ano de 1983 seu desejo foi atendido e a 2000AD deu início à publicação de duas das três séries semi regulares que ele desenvolveu para a revista: D.R. & Quinch, Skizz – Contato Imediato - ambas em 1983. A terceira série é A Balada de Halo Jones, também já publicada na íntegra pela Mythos.




D.R. & Quinch narra, com muito humor, as presepadas destruidoras de dois adolescentes alienígenas, delinqüentes juvenis, Waldo "D. R." (um acrônimo para "Diminished Responsibility", ou "Deficiente de Responsabilidade", como foi traduzido aqui) Dobbs, um gênio do crime cheio dos esquemas, e seu parceiro de crimes, Ernest Errol Quinch, um brutamontes de pele rosada, que com seus atos de vandalismo ao longo do tempo e do espaço influenciaram a história na Terra das formas mais caóticas. As histórias lembram sketches de comédia, com episódios como D.R & Quinch em Hollywood, D.R. & Quinch no exército, e outras situações onde a dupla conduz os acontecimentos às raias do absurdo. A inspiração segundo Moore, veio de alguns dos filmes produzidos pela revista National Lampoon, como O. C. & Stiggs e O Clube dos Cafajestes. 





O artista de D.R. & Quinch dispensa apresentações: a HQ é desenhada por Alan Davis, que também trabalhou em colaboração com Moore em Capitão Britânia e em Miracleman, antes de cortarem relações até hoje, por causa da guerra dos direitos no imbróglio Marvelman/Miracleman. Os últimos episódios de D.R. & Quinch têm roteiro de Jamie Delano e Alan Davis, e são uma seção de conselhos para ferrar com a vida dos leitores, mantendo a veia violenta, anárquica e cheia de humor negro de Moore.











Já Skizz – Contato Imediato, digamos que é uma versão adulta de “E. T. – O Extraterrestre”, é a história do intérprete Zhcchz, um alienígena que cai na Terra, mais precisamente em Birmingham. Sua nave se auto-destrói para que não caia em mãos erradas, e agora, à deriva neste planeta primitivo e perigoso, sua única esperança é a estudante Roxy e seus dois amigos, Loz e Cornelius, que auxiliam Roxy na empreitada para impedir Skizz de ser capturado pelo governo. Considerado pelo próprio Moore como um de seus trabalhos mais fracos, a série tem alguns pontos legais, como o momento em que Roxy é ridicularizada em sua escola após a história do contato alienígena, o que a torna uma alienígena em sua própria cidade. Também não tem como não se divertir com o personagem Cornelius Cardew, um técnico de tubulações que passou por um colapso nervoso após perder seu emprego (uma óbvia alusão de Moore à política austera de Margaret Thatcher na época) e tem rompantes de fúria cômicos ao longo da história.










O artista dessa série é Jim Baikie, que no começo da década de 2000 voltou a colaborar com Moore em seu selo America’s Best Comics desenhando o personagem First American.




Ambas as séries evidenciavam um traço na narrativa de Moore cada vez mais raro nos dias de hoje: o humor. E era um humor anárquico! D.R. & Quinch tem esse humor em maior proporção do que Skizz, mas ainda assim leituras mais leves do que o turbilhão que viria a seguir, em histórias como A Piada Mortal, o run em Monstro do Pântano e, é claro, Watchmen, que todo mundo leu e pouca gente entendeu (inclusive o Zack Snyder rs), e que acabou se tornando involuntariamente a HQ precursora de uma era de trevas e responsável por uma safra quase infinita de heróis cínicos nos comics. Moore viria a recuperar a leveza e o revisionismo juvenis somente quando criou seu selo de quadrinhos, ressuscitando o nostálgico Americas’s Best Comics, que resgatava o espírito das histórias pulp com Tom Strong, homenageava Will Eisner e sua criação máxima, o Spirit, com o personagem Greyshirt, entre outras obras referenciais, mas isso é papo para outro post...




E com mais esse encadernado, em capa dura e com 212 páginas, nos aproximamos dos catálogos das editoras gringas, com a bibliografia desse importante artista cada vez mais completa por aqui, e quase tudo que Moore produziu na 2000AD traduzido para o português e em edições caprichadas. Apesar de Moore não gostar muito dessas duas séries, por achá-las simplórias demais, ou excessivamente violentas sem justificativa razoável, segundo ele próprio, tenho certeza que essa opinião não é partilhada pelos seus fãs, que sempre aguardam com apreensão cada novo trabalho do Bruxão de Northampton, seja ele material recente, como Providence, ou reedições como essas, que datam do início de sua carreira.



A invasão britânica certamente não começou aqui, mas este material é um registro de um pequeno ramo das suas origens, de alguns dentre vários talentos, que juntos capitanearam uma revolução nesta mídia, revolução essa que reverbera até os dias de hoje...




quinta-feira, 6 de abril de 2017

JUIZ DREDD – HEAVY METAL, de John Wagner, Alan Grant, Simon Bisley, Brendan McCarthy e outros , ou “Quem ligou a loucura no máximo em Mega City Um, Velhinho???”

Por EDUARDO CRUZ




Alguns de vocês podem até ficar perplectos, mas o Juiz Dredd não é um herói (ou mesmo um anti-herói) por quem torcer. Segundo o próprio criador do personagem, o roteirsta John Wagner, Dredd é uma paródia a todo um estado de coisas que começava a se instalar no Reino Unido do final dos anos 70, e que culminou no já notoriamente opressor e extremamente conservador (alguns diriam retrógrado!) governo Thatcher, que chegou às raias do fascismo, com atitudes que não deixam nada a dever a nenhuma distopia da literatura, executando decisões geniais como a criminalização da homossexualidade, o enfraquecimento dos sindicatos e privatização de patrimônio público, entre outras políticas unilaterais. A arte, como um veículo denunciador, contra-atacou mais ou menos na mesma época, e motivado pelos mesmos fatores, além do Juiz Dredd, testemunhamos pelas mãos de Alan Moore a criação de seu distópico “V de Vingança”.

Morcegos não têm vez na Megona!!
Embora Dredd e V, ambos em seus próprios universos, fossem estabelecidos em lados diferentes da lei, a piada tinha o mesmo alvo: o governo em exercício na época das publicações. O protagonista de “V de Vingança” tem seu antagonismo bem definido logo nas primeiras páginas, mas John Wagner foi mais sofisticado ao fazer a crítica de forma tão avessa e hiperbólica: Dredd representa o autoritarismo acéfalo, o poder pelo poder.  Quem entendeu a piada se diverte com as aventuras do Juiz, que mantém a ordem em Mega-City 1 com pulso de ferro. Dredd sempre cumpre a lei. Sempre. O que é diferente de afirmar que ele serve à Justiça. Ambas, algumas vezes, caminham em direções opostas (principalmente na vida real).

Arte chapante de Brendan McCarthy


As histórias compiladas em “Juiz Dredd – Heavy Metal” têm como espinha dorsal aquele conceito pós-apocalíptico com o qual qualquer um (que tenha lido duas ou três HQs ou assistido ao filme do Dredd) já está familiarizado, todo o bê-á-bá dos juízes, as Mega-Cidades, a Terra Maldita, etc. Tudo, porém, muito mais comicamente violento e surreal. As histórias contidas nesse encadernado diferem do material regular do personagem porque não são histórias publicadas na 2000AD ou na Judge Dredd Megazine, e sim histórias que saíram na revista musical Rock Power. Com roteiros engraçados, imprevisíveis e brutais, além da pegada mais "metal" das histórias. Justificável, levando em conta a publicação em que as histórias eram veiculadas.


O nível de violência dessas histórias é bem mais intenso e absurdo do que as histórias "sérias" do Juiz Dredd. Pense naquele Looney Tunes clássico, (Sim, aquele mesmo, que não é veiculado mais em lugar nenhum porque as pessoas realmente acham que incitava as crianças à violência :>P) em que o Patolino toma tiros de espingarda na cara à queima roupa, ou marteladas na cara do Eufrasino, ou bigornas caindo na cabeça do Coiote, mas ao invés da plasticidade cartunesca dos personagens, onde o tiro de espingarda deixava o rosto do cartoon apenas com a cara cheia de fuligem ou uma marretada na cabeça dava apenas aquele amassado no topo da cabeça, para no fotograma seguinte vermos os personagens 100% restaurados novamente, em “Juiz Dredd – Heavy Metal” vemos os efeitos de uma pancada de cassetete em efeito realista (eu diria hiper-realista-gore, já que não raro globos oculares saltam das órbitas e dentes caem às dezenas com uma porretada bem dada), ou um tiro que arranca metade do rosto de um vagal. Ou sejE, é a violência dos Looney Tunes com as conseqüências físicas da realidade + um roteirista sádico pra dar aquela exagerada...

Será que sou perverso demais por achar graça nisso?



Nu, cru, sangrento e ainda assim de chorar de rir com o ridículo das situações, em plots impensáveis no título regular do personagem, como por exemplo “A Cartilha de Mega-City”, que é um número musical (!?!?!?!) retratando a rotina de Dredd no exercício do dever; “A Fuga das Galinhas”, que mostra uma ridícula (aliás, o adjetivo mais usado para as histórias nesse volume rs) rixa entre moradores de conjuntos habitacionais rivais; “Véspera de Natal” mostra que Dredd não alivia nem pro lado do Bom Velhinho; “Bimba”, uma piração transdimensional passada em uma floresta com bichinhos falantes e que termina em massacre, e “A Balada de Toad MacFarlane”, onde vemos Dredd caçando um mutante em quem muita gente gostaria de dar um beijinho, são apenas algumas das histórias do encadernado, que reúne 19 histórias curtas no total. O acabamento do encadernado é o mesmo que vem sido dados aos volumes anteriores do personagem, em capa dura e papel couché.


No que diz respeito à arte, esse volume conta com o detalhismo de Simon Bisley para retratar os mais diversos tipos de lesões e tiros das mais diversas gravidades, além de nomes consagrados no mercado britânico, como Colin MacNeil, Dean Ormston e John Hicklenton. E fechando o volume, a arte lisérgica de Brendan McCarthy, que, em minha opinião de merda, combinou ainda mais com o tom dessas histórias do que o próprio Bisley e companhia!






Em primeira mão o resultado do crossover Juiz Dredd vs. Bamb..., digo, Bimba!

Em resumo, uma HQ divertida como um mix de Tarantino com Takashi Miike. E se você se diverte com tiroteios, incinerações, banhos de sangue, queimaduras, motosserras, macacos assassinos, defenestrações, vísceras expostas, mutilações em geral e sapos mutantes com secreções alucinógenas na pele (acho que se você chegou até esse trecho do texto, já gastou todos os “WTF!?” que podia e está cansado demais pra soltar mais um rs), “Juiz Dredd – Heavy Metal” é uma leitura mais leve na crítica social, porém mais anabolizada em suas situações de violência estilizada. Para quem está atrás de uma leitura leve, - apesar da violência, por mais contraditório que possa soar - rápida e divertida.



AGORA, CHEGA DE VADIAGEM E SIGAM EM FRENTE, VAGAIS!!
CIRCULANDO, CIRCULANDO!!!!!

NÃO VOU AVISAR NOVAMENTE!!!