Mostrando postagens com marcador distopia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador distopia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

SKREEMER, de Peter Milligan + Brett Ewins + Steve Dillon, ou "Arqueologia Vertigo"





Por EDUARDO CRUZ





É sombria. Muito sombria.
A noite ou a HQ?
Ambas, e trabalhar na HQ tomou muitas
noites sombrias.
A semente de uma idéia - Milligan e eu sentados
no cinema assistindo a Era uma vez na América.
A semente de uma idéia.
Gângsteres.
Uma HQ de gângsteres.
Uma HQ futurista de gângsteres.
Torne retrô sci-fi e é isso.
A era está ficando velha.
O mundo é uma lugar perigoso.
No quadrinho ou no planeta?
Em ambos.

Brett Ewins, em texto de introdução de Skreemer 


Já ouviram falar em Finnegans Wake?

Um livro não linear, sem começo e sem fim, onde nada tem necessariamente uma sequência lógica, e eventos não estão obrigatoriamente encadeados entre si. Onde o aleatório predomina. Mais ou menos como a própria vida. Finnegans Wake é uma narrativa aparentemente caótica, um livro que levou 17 anos para ser terminado, onde o autor James Joyce mistura neologismos e funde palavras de idiomas diferentes, uma verdadeira torrente de idéias e palavras criadas por Joyce exclusivamente para que ele expressasse suas idiossincrasias em um fluxo narrativo, e que é o pesadelo de qualquer tradutor! Curiosamente, o Brasil ousou e nós somos um dos poucos países a ter uma tradução de Finnegans Wake. Tarefa que poucos conseguiram sem perder a essência da obra na tradução.

James Joyce

Mas tão complexo quanto traduzir Finnegans Wake é lê-lo: uma obra que atrai e repele leitores com igual intensidade, muitos estudiosos atribuem diversos significados à obra sem chegar a uma conclusão definitiva. Entre tantos significados e leituras há quem diga que não há o que entender e que o livro é pura imersão na linguagem, e há quem enxergue a apreensão e o vislumbre do eterno, fruto da contemplação dos ciclos que se sucedem entre si, eras de homens, deuses e heróis. A mesma eternidade que o personagem-título da HQ, O Skreemer, visa alcançar através da perpetuação de si mesmo projetado em uma linhagem, mantendo o ciclo de vida e morte nos trilhos.

"Fluxo de linguagem", "oceano de palavras vivas"... Será essa a sensação de ler Finnegans Wake?


Aposto que os parágrafos aí em cima assustaram vocês, não? "Que diabos tá acontecendo aqui? o título é de um gibi da Vertigo, mas o texto é uma desgracenta duma aula de literatura??? esse animal tá esclerosado? Isso é alguma pegadinha???". 
Nada disso, macacada. É porque pra compreender melhor Skreemer, a HQ de Peter Milligan (roteiro) e Brett Ewins + Steve Dillon (arte), é preciso pelo menos saber do que se trata(m) o(s) tal(is) Finnegans Wake  (sim, a referência é dupla! e uma dentro da outra, a inception das referências! rsrsrsrs) que são repetidamente citados ao longo de toda a história. Milligan mirou alto e tentou entregar uma história que apesar de curtinha, seria o seu épico de gerações. Inspirado em filmes como Era uma vez na América e Caçada na Noite (também vai ser inevitável pro leitor fazer conexão com O Poderoso Chefão, Os Bons Companheiros e Scarface) e no próprio livro Finnegans Wake, Skreemer conta a história do líder criminoso Veto Skreemer, porém narrada por Timothy Finnegan, um capanga menor na organização de Veto. Tim é encarregado de fazer a segurança da mulher de Veto, ou melhor, a prostituta que Veto escolheu para dar à luz a seu herdeiro. A história é ambientada em Nova York, 38 anos após uma guerra que deixou a civilização em pedaços. Veto é um gigante que sente que a era dos gigantes está chegando ao fim. Ele é o dono de um império criminoso conquistado às custas de muita violência e brutalidade, e para combater essa obsolescência irrefreável que se aproxima no horizonte, Veto Skreemer tem um plano monstruoso até mesmo para os seus padrões execráveis, algo tão terrível quanto o holocausto que assolou o mundo. À medida que esses acontecimentos se desenrolam, caminhando rumo à inevitável conclusão trágica, outros personagens nos dão acesso ao passado de Veto por meio de flashbacks, onde vemos como ele formou sua própria gangue com o auxílio de seus amigos, ainda adolescente, galgando degrau por degrau até se tornar um dos maiores "Presidentes", como são nomeados os líderes criminosos nessa distopia grotesca. Esse recurso dos flashbacks escancara tanto a intimidade dos personagens para o leitor que vemos camadas que chegam a dar a impressão de os conhecermos como pessoas reais, tal a profundidade que o desenvolvimento de Milligan alcança na narrativa.







A HQ foi publicada pela DC comics em 1989, e posteriormente incorporada ao selo Vertigo, o que, levando em conta o teor da história, foi muito adequado. Milligan consegue, através da narrativa que vai e volta em flashbacks, capturar esse espírito de ciclos contido em Finnegans Wake com maestria. O dilema de Veto também é um prato cheio pros filósofos amadores, pois o mafioso padece da velha dicotomia determinismo x acaso, chegando ao ponto de "forçar a mão do destino" em alguns momentos, para que tudo saia conforme ele crê que as coisas devem acontecer. Uma das primeiras histórias da Vertigo, que já nasceu produzindo clássicos! Alôu Marvel!
A arte fica a cargo do imorrível Steve Dillon, que dispensa apresentações, e com seu traço inconfundível também dispensa maiores comentários. Muito se fala sobre Moore, Gaiman, Morrison, Milligan e companhia serem os alicerces do selo Vertigo, no tocante à produção de histórias. Já do lado dos artistas, Steve Dillon é fundamental, e Skreemer mostra que o saudoso artista britânico foi um dos parteiros da Vertigo.







Ué... tradução do Márcio Seixas???

A segunda conexão entre Skreemer e Finnegans Wake é com a música de mesmo nome, uma canção tradicional irlandesa com origem estimada por volta da década de 1850, que relata uma anedota acerca de um pedreiro, Tim Finnegan, que nasceu "amando a malvada (...) e, para aliviar a labuta diária quando podia, tomava a maldita", e que, ao cair de uma escada, fratura o crânio e é dado como morto. Os frequentadores de seu funeral ficam exaltados, uma briga explode no recinto e um pouco de uísque é derramado no rosto do "cadáver" de Finnegan, fazendo com que ele desperte, "voltando à vida" e se unindo às celebrações. O uísque é tanto a causa da ruína quanto da ressureição de Finnegan. Aqui a expressão Finnegans Wake assume duplo sentido: a palavra "wake" tanto pode significar "despertar" quanto "funeral", e Tim Finnegan passa pelas duas situações na letra da canção. Vale lembrar também que a palavra whiskey é derivada da expressão irlandesa uisce beatha, ou "água da vida". E devo acrescentar que essa é a maior verdade que já li na minha vida ;>). A canção tem sido regravada de tempos em tempos por vários grupos, como o Dropkick Murphys, entre outros, e é a canção que o avô do personagem Timothy Finnegan vive cantarolando ao longo de toda a HQ. A canção serviu como base para o livro de James Joyce, com a ressurreição cômica de Finnegan servindo como a metáfora ideal para o ciclo da vida.







Skreemer não é inédito no Brasil: a editora Abril publicou a HQ aqui no começo dos anos 90 em formato americano, em uma mini série em seis edições. Já em 2000 e uns a editora Brainstore perdeu a chance de fazer um belo resgate histórico e cagou tudo: publicou no tal formato paraguaio, em preto e branco, tradução sofrível e uma qualidade tão ruim que se via a arte pixelada nas linhas dos desenhos, se olhasse com um pouco de atenção. A bola caiu no campo da Panini para se fazer justiça e dar o tratamento que Skreemer merece, publicando a obra em edição de luxo, com capa dura, papel couché e até mesmo um pequeno apêndice com a letra de Finnegans Wake, na versão original e também traduzida. Um verdadeiro trabalho de arqueologia da Vertigo, um belo resgate de um pedacinho da história das HQs! A invasão britânica começou AQUI! (também rs).

Se encontrar essa edição de Skreemer em um sebo, FUJA!

Eu ainda poderia falar mais um pouco, como por exemplo, o porquê de Joyce ter optado não colocar apóstrofo em "Finnegans", mas vou parar por aqui! Enfim, digam o que disserem do Finnegans Wake de Joyce: que é um fluxo de genialidade, ou apenas uma tentativa de escrever com muito uísque na cabeça. Whatever. Que sigam os debates inconclusivos até o fim dos tempos. 

Já Skreemer não deixa nem sombra de dúvida: É brilhante e pronto.




quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O PERFURANEVE, de Lob + Rochette + LeGrand, ou "Próxima parada: Extinção. Observe atentamente o vão entre o trem e a plataforma."








Por EDUARDO CRUZ



"Percorrendo a branca imensidão de um eterno e congelante inverno de solidão, corre, de uma ponta à outra da Terra, um trem cujo movimento nunca se encerra...
É o Expresso Perfuraneve, com seus mil e um vagões.
É o último bastião da civilização!" 


Ninguém sabe ao certo como começou: se foi por causa da guerra, se foi um acidente, ou um cataclismo natural. De repente, em uma tarde de verão, um vento gelado varreu tudo, e o mundo mergulhou em uma nova era glacial, matando toda a vida na Terra. Os únicos sobreviventes agora residem em um trem, que permanece em movimento perpétuo. E dentro dele, as últimas pessoas da Terra tentam seguir com algum tipo de vida, confinados entre os vagões, mas ainda agarrados a estruturas do velho mundo. 


"Neste mundo fechado e dividido tanto os abastados quanto os perdidos têm como horizonte, única e somente, as paredes e limites de vagões e mentes."

A sociedade deste trem se divide entre os "Vagões Dourados", onde vive a elite, com poderes e privilégios plenos, os vagões centrais, onde residem cidadãos de uma espécie de classe média, e os vagões do fundo, onde os habitantes vivem à míngua, completamente isolados num gueto, sem comunicação com o restante do trem. Uma divisão social rígida e opressora, e que dispõe de muitos artifícios para que o status quo seja perpetuado, tais como religião, jogos de azar, prostíbulos e vagões de lazer, e em última instância, até mesmo uma força militar! sim, o trem é um microcosmo perfeito de nossa sociedade, e só não vê isso quem não quer, logo nas primeiras páginas da HQ.



Técnicas de controle de massas...

... de uma ponta à outra do espectro comportamental individual.

Essa é uma breve descrição de "O Perfuraneve", uma memorável HQ européia - da França, para ser mais exato - um excelente conto sobre um futuro distópico. E, por se tratar de uma distopia, a Aleph não poderia ficar sem lançar isso por aqui. A editora, já conhecida por seu catálogo recheado de clássicos da literatura de ficção científica compilou as três histórias - "O Perfuraneve", "O Explorador" e "A Travessia" - nesse belíssimo volumão, com um papel LWC de gramatura altíssima. De grandes dimensões (21,5x29cm) e pesando mais de 1kg, essa edição nacional é um livraço, o que me fez demorar a terminar a leitura, já que era impossível abrir no ônibus ou ler na cama, por exemplo. Mas muito bonito e caprichado, brincadeiras à parte.


As três HQs, compiladas em volume único aqui no Brasil

Em "O Perfuraneve", HQ lançada em 1984 (que coincidência, não? rs), acompanhamos Proloff, um habitante dos vagões dos fundos que tenta avançar para a frente do trem. Durante sua jornada vemos um pouco, ainda que de forma apressada, do funcionamento dessa sociedade do trem: como os alimentos são processados/cultivados, a organização religiosa, que substituiu Deus pela Santa Locomotiva, e as fontes de diversão da elite, hedonista e decadente. Lá ele descobre que há um problema com a propulsão da locomotiva. A máquina está perdendo sua velocidade gradualmente. Proloff também descobre o que a elite acha ser a causa do problema e os planos para resolver isso, ambas as conclusões monstruosas.


"Percorrendo a branca imensidão de um eterno e congelante inverno de solidão, corre, de uma ponta à outra da Terra, um trem cujo movimento nunca se encerra."

Nas duas histórias seguintes, "O Explorador" e "A Travessia", produzidas mais de uma década depois da original, devido à morte de Jacques Lob, quem escreve os roteiros é Benjamin LeGrand. Dessa vez a máquina onde se passam as duas histórias não é o Perfuraneve, e sim o Desbrava-gelo, uma locomotiva ainda maior, e que é regida por um conselho de líderes, tendo como integrantes o líder político, o líder religioso, o chefe da segurança, entre outras autoridades. As questões sobre autoritarismo, estratificação social e manipulação continuam, e são até mais bem desenvolvidas. Vemos inclusive uma força de controle que não havia na primeira história: a mídia. Existe uma emissora de tevê, que além de doutrinar, sorteia viagens de realidade virtual, o único escape fugaz das massas para a miséria em que estão enfiadas. A religião é cheia de dogmas, que engessam as pessoas nas posições exatas que o sistema deseja que elas permaneçam. Além disso existem os desbravadores, equipes de trabalhadores que saem do trem com pesados trajes de proteção, para realizarem reparos, exploração e quaisquer outros motivos que a liderança do trem alegue para utilizá-los. Puig Vallès, um desbravador que questionou demais a respeito de uma dessas missões é preso, e a partir daí vemos uma série de desdobramentos que colocarão o delicado equilíbrio social do Desbrava-gelo por um fio! 


Escolha seu veneno: a mídia...

... a religião...

... ou o estado totalitário mesmo!
Ainda bem que não vivemos nesse trem. Não, pera...


Em 2013 foi lançada uma adaptação da HQ, que só chegou aos cinemas brasileiros mais de um ano depois. Roteirizada e dirigida pelo coreano Joon Ho Bong (mesmo diretor de "O Hospedeiro", o filme mais lucrativo já produzido na Coréia do Sul), "O expresso do amanhã" é o primeiro filme ocidental do diretor. Estrelado por Chris "Capitão América" Evans, mas também com bons nomes como John Hurt (R.I.P.), Ed Harris e Tilda Swinton. Apesar das diferenças em relação à HQ o filme funciona, e foi um dos melhores que eu assisti em 2014. Mesmo com um final diferente, com direito à plot twist e cenas de ação à exaustão, um vício das produções ocidentais atuais, a essência da HQ se faz sentir e a cenografia e caracterização da produção fazem as duas horas do filme valerem muito a pena. Como eu sempre digo pra minha mulher: "Nunca vi um filme coreano realmente ruim" rsrsrs. 






"O expresso do amanhã" a.k.a Snowpiercer (2013)
CompReto e dubRado


Pra quem gosta de distopias, tanto a HQ quanto o filme são um prato cheio. Quem aprecia HQs Européias, vai curtir o estilo de Jean-Marc Rochette, que inclusive tem uma evolução da primeira para as outras duas histórias, perceptível não só em seu traço, mas principalmente na fluidez narrativa, no ato de contar a história de um quadro para outro. Além das três HQs, essa edição nacional tem um posfácio do cartunista Jean-Pierre Dionnet, onde ele fala um pouco a respeito da HQ e da adaptação cinematográfica, com imagens de produção da adaptação.




Uma alegoria que mostra o vício da humanidade em repetir os próprios erros, ao criar um microcosmo idêntico ao que foi responsável pela destruição do mundo, "O perfuraneve" começa lento, mas engrena a leitura rapidamente, e à medida que a trama se desenrola, não dá mais pra parar de ler, como uma locomotiva sem freios, até suas páginas finais. Uma história sobre o egoísmo incorrigível do ser humano, e como pessoas inventam hierarquias e castas até em situações limite.

E é por isso que eu prefiro os macacos.











FUI!!! até a próxima!!




quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

NÓS, de Evgeny Zamiatin, ou "Manual de Instruções para se Criar Uma Distopia"

Por RICARDO CAVALCANTI



A arte está em constante movimento e se transformando em algo novo, através de influências, inspirações e releituras; assim como “Os Livros da Magia” de Neil Gaiman, inspirando J.K Rowling a criar “Harry Potter”; “Battle Royale” ajudando Suzanne Collins a compor o mundo de “Jogos Vorazes”; “Eusou a Lenda” de Richard Matheson inspirando George A. Romero em seu “A Noite dos Mortos Vivos”. Mas você já se perguntou o que inspirou obras como “Admirável Mundo Novo”, ou “1984”? Trata-se do livro “Nós”, do russo Evgeny Zamiatin (Евгений Замятин). Apesar de pouco conhecida até então (e de difícil acesso), a obra é de extrema importância e influenciou diretamente autores como Aldous Huxley, Anthony Burgess e George Orwell em suas obras mais icônicas.



Considerado um dos maiores autores russos do século XX, Zamiatin ganhou sua primeira biografia somente em 2013, pelas mãos da autora J.A.E. Curtis, intitulada “The Englishman From Lebedian: A Life of Evgeny Zamiatin”. O livro faz um apanhado desde a sua infância até seus últimos dias, passando por toda sua formação cultural, revelando o homem, suas preocupações e seus fortes princípios.



Evgueny ZamIatin se definia como um herege e costumava desagradar as sociedades retratadas em seus contos, livros e peças de teatro, mostrando o que ninguém queria ou gostaria de ver - sempre enfiando o dedo na ferida e sofrendo as consequências por conta disso. Durante o período que viveu na Inglaterra (supervisionando a construção de um navio para seu país), escreveu “Os Ilhéus”, que era uma crítica à sociedade inglesa. A obra ofendeu tanto aos ingleses, que não foi possível sua publicação na terra da Rainha. Antes disso, na Rússia, teve seu romance “Au bout Du Monde” censurado pelo órgão de repressão do Czar, por ser considerada ofensiva.



“Nós” foi escrito entre 1920 e 1921, pouco depois da revolução russa (ocorrida em 1918) e lançado em inglês no ano de 1925; como um alerta para os perigos do totalitarismo que o autor estava presenciando logo nos primeiros anos de criação da antiga União Soviética. Depois que o livro foi “descoberto” pelos membros do partido comunista, Evgueny Zamiatin acabou se vendo obrigado a pedir exílio à Stalin para fugir de represálias, indo viver na França até a sua morte. A primeira edição russa do livro só saiu em 1988, durante a abertura política e econômica promovida pela Perestroika de Gorbachev. O livro já havia sido lançado por aqui em 1963 com o nome “A Muralha Verde” e posteriormente pela editora Alpha Omega, já batizada como “Nós”.



No mundo criado pelo autor, nos deparamos com uma sociedade distópica em que todo o individualismo some por completo. Os nomes também são abolidos e os membros da sociedade são identificados apenas por números. A palavra “eu” foi extinta, pois tudo é realizado para a coletividade; tudo se resume a “nós” (daí o nome do livro). Após uma grande guerra que durou 200 anos e dizimou 80% da população mundial, surge a figura do Benfeitor: O Grandioso Estado Unifcado. Travestido num discurso de “bem estar para todos” e sob o argumento de expandir a felicidade, o governo impõe goela abaixo sua fórmula matemática para a perfeita felicidade - que também se tornou apenas mais um processo burocrático estatal. O Estado decide quando e como você come, quando dorme, do que você gosta e com quem se relaciona. O amor, os sonhos, a fé em um ser divino e as dúvidas também passam a não mais existir. As paredes e portas são transparentes para facilitar a vigilância e “proteger” a todos, como no Grande Irmão de George Orwell. Tudo é definido a partir de cálculos matemáticos - inclusive o sexo. Existem dias específicos para a prática de tal ato. Além disso, todos têm direito ao corpo do outro para fins sexuais, bastando apenas cumprir as formalidades de preencher alguns formulários e requisições.


O livro é contado através das anotações do D-503, um construtor da nave Integral, que levará esses escritos como relatos dessa sociedade perfeita, para que as civilizações em outros planetas tenham acesso ao
"maravilhoso mundo matematicamente feliz, proporcionado pelo magnífico Estado Unificado". Caso não sejam convencidos por palavras, o Estado Unificado se verá obrigado a usar a força para torná-los felizes, usando todo o arsenal bélico (caso seja necessário). Impor a força para te fazer o bem, mesmo contra a sua vontade, é um contra-senso absurdo, mas que ainda é usado à exaustão. É com esse tipo de argumento que se invadem alguns países hoje em dia e se impõe um determinado regime político à força.


Enquanto toda a humanidade se rende a Henry Ford em "Admirável Mundo Novo" (mudando, inclusive a forma de dividir a história do mundo entre "antes e depois de Ford"), em "Nós", Taylor é considerado um profeta. A conclusão que podemos tirar com isso é que: os conceitos da administração científica podem acabar com o mundo como conhecemos, transformando todo comportamento humano em movimentos robóticos, calculados e programados, nos mergulhando em uma imensa distopia.




Já nas primeiras páginas, podemos notar muitos elementos que depois seriam explorados também em livros como "Laranja Mecânica" de Antony Burgess, ou no "Farenheit 451" de Ray Bradbury - além das obras já citados acima. Durante a leitura, você pode, como num jogo, tentar descobrir em quais partes as histórias foram influenciadas por este livro. Para os fãs dos autores mencionados até aqui, digo que certamente é uma obra que não pode faltar na sua lista de leitura. Para quem nunca leu nenhum desses livros, sinta-se privilegiado por ter a oportunidade de conhecer a “pedra fundamental” que deu origem a todas essas obras. Enquanto muitos usaram “Nós” como influência e inspiração, outros preferiram nem se dar ao trabalho de disfarçar que estavam copiando descaradamente, como é o caso de Any Rand no livro Cântico. Mas isso não vem ao caso agora.



Poucas adaptações foram feitas da obra de Zamiatin. O livro ganhou uma adaptação para a TV alemã em 1982, batizada de “Wir” (nós, em alemão) e dirigida pelo checo Vojtech Jasny. Estamos esperamos uma boa alma que faça as legendas deste filme.


Uma outra adaptação, um curta metragem francês de 2016, está completo no youtube. Dirigido por Alain Bourret, recebeu o nome de “The Glass Fortress”.

Apesar de a ideia de se viver num mundo distópico possa parecer algo muito distante de nós (pensando bem, nem tanto), no caso de Evgueny Zamiatin, ele estava vendo acontecer diante de seus olhos. O que parecia óbvio e assustador para o autor, não era perceptível para a maioria das pessoas. Fica a pergunta: Será que todos que vivem em uma distopia, sabem que estão inseridos em uma?


A arte não é feita somente para agradar aos sentidos e nos deixar extasiados com sua beleza. Serve também para contestar o status quo. Segundo o próprio autor, “a arte deve ser feira por loucos, hereges e visionários”. Quando a arte se torna subversiva por apontar para uma outra direção - ajudando a fazer cair as vendas dos olhos, derrubando conceitos, tabus e "verdades absolutas" - talvez ela esteja cumprindo bem o seu papel. Para perceber se o objetivo foi alcançado, basta notar se o alvo se incomoda, e observar como reage quando isso acontece.



A edição da Aleph lançada em março deste ano, além de dar um tratamento caprichado em capa dura, digno de sua importância, traz entre seus extras uma resenha de George Orwell, em que ele faz o paralelo entre “Nós” e “Admirável Mundo Novo”. Certamente “Nós” estava naquele momento, ao lado de sua cabeceira, cheia de rabiscos e anotações enquanto escrevia 1984.

Só Admirável Mundo Novo, senhor Orwell?

Além disso, a edição traz a comovente carta de Zamiatin enviada a Stálin, solicitando exílio devido à constante perseguição que vinha sofrendo por conta de suas obras. Mais que uma mera curiosidade, trata-se de um importante documento histórico.



Como já foi dito, a obra é um excelente manifesto e um alerta para os perigos do totalitarismo, além de suas discussões no seu aspecto filosófico, antropológico, religioso e histórico. Atualmente, além deste livro, só temos de Zamiatin o conto “A Caverna” traduzido para o português. Esperamos que esta seja uma nova porta se abrindo para as outras obras do autor que, mesmo após um século, ainda continua sendo tão influente e se mostrando mais atual que nunca.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O PLANETA DOS MACACOS, de Pierre Boulle, ou "Quem é o Primata Irracional?"




Por RICARDO CAVALCANTI



O Planeta dos Macacos desperta lembranças diferentes em cada um. Enquanto alguns se lembram do filme com Charlton Heston, outros já se recordam do realizado por Tim Burton em 2001. Os mais velhos ainda podem lembrar da série de TV, ou dos desenhos animados. Mas pouco se fala sobre a obra original. Aquela que foi responsável por nos apresentar a essa sociedade dominada pelos macacos. De certa forma, os filmes acabaram ofuscando um pouco o livro. Mas será que alguém precisaria ler o livro, depois de tantas adaptações para o cinema e TV? Será que alguma coisa de interessante ainda tinha a ser lida sobre o tema? A dificuldade em se conhecer a obra original, também ajudou a deixá-la perdida no tempo. Para nos salvar, a Editora Aleph resgatou o livro no limbo do esquecimento. Mas ainda existia a dúvida: será que mesmo assim vale a pena?


Será?

O francês Pierre Boulle escreveu uma história que se passa durante a segunda guerra mundial no livro A Ponte do Rio Kwai (lançado em 1952) tendo como base a sua experiência como combatente, quando atuou contra o avanço do exército nazista. Cinco anos após o lançamento, acabou ganhando uma respeitada adaptação para o cinema, vencedora de sete Oscar, incluindo os de melhor filme, melhor diretor e melhor ator. (Sim, você está certo. A inspiração para o nome daquela “brincadeira” que passa naquele rasteiro programa dominical, veio desse filme sim. A música assoviada durante o quadro, também é do filme).



Agora já consagrado, Pierre Boulle resolveu mudar de gênero literário, optando por contar uma história de ficção científica e o fez com uma facilidade (e qualidade) espantosa. Era nada mais, nada menos que "O Planeta dos Macacos". O livro fez um enorme sucesso e rapidamente atraiu mais uma vez a atenção de Hollywood, que não poderia deixar de se aproveitar do êxito de mais essa obra. Mas não vamos falar sobre as adaptações para outras mídias agora: Estamos elaborando um dossiê com tudo de relevante relacionado universo símio na cultura pop, em breve no Zona Negativa.


Dr. Gori e Karas nos ameaçaram, caso o dossiê não saia.


Por hora, vamos direto ao livro:


A história é narrada através da leitura de uma mensagem encontrada numa garrafa perdida no meio do espaço, escrita por Ulysse Mérou, tripulante de uma nave que está em uma missão de exploração espacial. Nela, ele conta suas experiências ao pousar no planeta Betelgeuse, junto com outros dois tripulantes. Pousando na superfície do planeta, percebem que é possível respirar normalmente e resolvem fazer o reconhecimento do local. Notam que existem muitas semelhanças com a Terra e logo descobrem um grupo de humanos com comportamento animalesco. Enquanto tentam se familiarizar com os nativos, são surpreendidos por gorilas agindo de uma maneira, até então, surpreendente. Montados a cavalos e com armas em punho, capturam alguns humanos (além de dois dos tripulantes). Após a confusão inicial, podemos perceber que, naquele planeta, quem evoluiu foram os macacos, enquanto os humanos não passavam de bestas selvagens.

Aos poucos, descobrem que nosso viajante espacial é um humano diferente dos outros. Enquanto vários cientistas o estudam para saber o seu grau de evolução e inteligência, Zira, uma das cientistas, acaba lhe dando um pouco mais de atenção, percebendo que ele é mais que um animal um pouco mais evoluído, ou apenas bem adestrado. Com o passar do tempo, os dois conseguem manter um contato maior, enquanto aprendem a se comunicar um com o outro. Sua existência é mantida em segredo para que seja revelado somente no momento certo. Nosso personagem principal acaba se encantando por uma humana selvagem, passando a chamá-la de Nova. Seus constantes pensamentos nela acabam, por vezes, influenciando em suas atitudes

Quando finalmente é revelada a existência de um humano que fala, com inteligência e capacidade de raciocínio, acaba desencadeando uma onda de conflitos de interesses, inveja, intriga e medo por parte de alguns. Enquanto uns consideram tal descoberta uma ameaça real à existência da sociedade dos símios, outros acreditam que ele pode ser o elo perdido na cadeia de evolução dos macacos.



Invertendo o ponto de vista, o autor aproveita para mostrar a crueldade com que os animais são tratados, colocando os humanos no lugar dos macacos como cobaias nos experimentos científicos. Seguindo a linha de raciocínio dos símios: “Não existe nada de errado em usar pessoas para os experimentos. Afinal de contas, são só humanos. Eles não pensam, não possuem sentimentos e só agem por instinto.”

O que nos define como humanos? A capacidade de raciocínio? A consciência da própria existência? Possuir uma alma? Caso tivéssemos um contato com um ser tão inteligente e desenvolvido quanto nós, como será que reagiríamos? Será que os aprisionaríamos e os trataríamos como aberração? Certamente não viveríamos em harmonia, pois não conseguimos fazer isso nem com nossos semelhantes.

Mesmo que você acredite que conhece bem a história e já sabe o final do filme, eu te digo: É bem diferente e vale muito a pena. As situações criadas passam muito mais credibilidade que nas várias adaptações que só utilizaram alguns (poucos) elementos apresentados no livro. A maioria só pegou o cenário de um mundo dominados por macacos sem explorar muito o potencial do argumento. A impressão que se tem é de que o “cenário” lhe parece familiar, mas a história é totalmente nova. Principalmente por conta do final, que me soa muito mais impactante e interessante que o do filme. O livro acaba nos deixando com um gostinho de quero mais. Infelizmente o autor não voltou ao planeta Betelgeuse. Pensando bem, talvez isso possa ter sido uma boa idéia.


ALERTA!!

Caso leia o livro, fique um bom tempo longe do filme de 1969. Chega a ser embaraçoso toda a transformação que fizeram com a história. Ver o personagem ser transformado no estereotipo de um típico americano - arrogante, sarcástico, valentão, bom de briga, garanhão e que é bom com armas de fogo - deixa a gente com um gosto ruim na boca. Ou será que eu estou errado e todos os astronautas são assim? Vai ver estou mal informado. Afinal de contas, se precisar pousar em algum planeta e tiver que sair na mão com alguns seres que vivem por lá, é bom estar preparado mesmo. O Capitão Kirk já mostrou diversas vezes que isso é necessário. Mas podemos encaminhar essa pergunta ao astronauta brasileiro Marcos Pontes. Ele saberia confirmar.

Cenas de perigos reais encontrados no espaço

Agora junte-se ao orangotango Clyde, à chimpanzé Chita e ao gorila Grodd, para acompanhar as aventuras nessa excelente história de ficção científica e torça para que eles não se unam contra você para te escravizar.