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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

DEUSES CAÍDOS, de Gabriel Tennyson, ou "Aqui no RJ se pronuncia "Conxxxxtantchine"!!!!"







Por EDUARDO CRUZ INVERTIDA



Quem nunca brincou com alguma coisa (supostamente) sobrenatural na adolescência, essa época da vida em que uma estranha mistura de fanfarronice, curiosidade e falta de noção se manifesta na molecada? Seja tentando contatar espíritos com um compasso, ou com o famigerado Jogo do Copo - a Ouija de pobre - ou comprando um livro de São Cipriano em um sebo qualquer, para, 15 minutos depois, devolver o livro horrorizado pelo conteúdo barra pesada do mesmo (Essa eu já fiz heheh. Mas ei, eu tinha só 14 anos!). E foi assim que o nome "Cipriano" ficou para sempre marcado na minha memória rsrsrs. Mas o que isso tem a ver com essa resenha???? Calma, continuem comigo e vão entender heheheheh... 

O livro São Cipriano que eu possuí.... por uns 15 minutos antes de arregar rs

Depois do perverso Ultra Carnem, de César Bravo, e do sangrento Jantar Secreto, de Raphael Montes, a literatura fantástica nacional acaba de ganhar mais um reforço. Gabriel Tennyson desponta com seu romance de estréia magnificamente macabro, envolvendo sociedades secretas, demônios e outros seres mitológicos, ambientado no Rio de Janeiro dos dias atuais e com uma trupe de personagens interessantes. 



Deuses Caídos é um thriller de mistério com toques de fantasia urbana e horror sobrenatural. Tudo começa com um misterioso serial killer que vem assassinando evangelistas famosos. E pior: O faz utilizando a Internet para veicular as atrocidades, com um público cada vez cruel e ávido por violência que vem crescendo a cada crime cometido - um sagaz comentário a respeito da perversidade que o anonimato concedido pela Internet confere. O assassino encarna uma figura messiânica que alega realizar uma justiça divina merecida pelas vítimas. Um detalhe: As atrocidades sugerem haver um elemento paranormal envolvido. Isso ameaça o trabalho desempenhado pela Sociedade de São Tomé, um braço da Igreja Católica responsável por manter secreta a existência de criaturas sobrenaturais vivendo entre nós, embora exista todo um submundo de criaturas místicas habitando a cidade do Rio de Janeiro e seus recônditos mais obscuros, da Vila Mimosa até a Ilha do Fundão, passando pela Lapa e Santa Tereza, a Cidade (já nem tão mais) Maravilhosa certamente é o personagem principal do livro.

 


O membro da Sociedade São Tomé encarregado da captura deste estranho assassino é o veterano Judas Cipriano, um padre badass descendente de São Cipriano (Aquele mesmo do livro de magia negra), que possui estranhos poderes sobrenaturais. Judas é o padre mais improvável possível: Boêmio, beberrão, usuário de substâncias tóxicas, frequentador assíduo dos pontos de travestis da Lapa, e com uma infância bizarra que envolvia maus tratos extremos por parte de seus estranhos pais. Uma espécie de John Constantine carioca. Cipriano é convocado para trabalhar como consultor da Polícia Civil na investigação - atentando para os aspectos sobrenaturais do crime, logicamente - e lhe é designado como assistente a policial Júlia Abdemi, que seria uma pessoa comum, não fosse por seu dom de se comunicar com máquinas (Coisa de uma HQ de Warren Ellis, mas que fica ainda melhor e mais brazuca depois de uma revelação lá no ato final). Juntos, os dois passarão por uma tour de force, durante quatro dias, revirando o submundo místico da Cidade Maravilhosa atrás de pistas para capturar o assassino. E tentando sobreviver às descobertas que realizam.

E aí? Impactados? Eu fiquei. Bastante.

O verdadeiro São Cipriano
Esse resumo faz o material parecer promissor, não? Um thriller urbano de investigação, com toques de fantasia macabra, muito gore, demonismo trevoso, releitura de seres mitológicos sob uma nova roupagem... Promissor é só o resumo mesmo. O livro em si é FODA. Deuses Caídos é provido de um ritmo narrativo impecável e um texto fluido. Algo impressionante, ainda mais se levando em conta que este é o primeiro livro de Tennyson. "Minhas influências visuais vieram de filmes como Silent Hill, Hellraiser, O Labirinto do Fauno e Seven - Os Sete Crimes Capitais. Se eu tivesse que definir o livro em uma frase, diria que é uma espécie de Hellboy tão violento quanto os filmes de Hannibal Lecter.", declarou o autor em uma entrevista.

Gabriel Tennyson

Nosso país é essencialmente pluricultural. Aqui, nesses últimos cinco séculos, tudo se misturou, se mesclou e foi sincretizado, desde os genes até a religião e o folclore, e Tennyson soube usar bem o que temos de mais rico: Essa infinidade de mitos, lendas e referências, inclusive sem perder o senso de contemporaneidade. Assim, referências da cultura de massa como X-Men, Star Wars, Arquivo X e o BvS de Zack Snyder se mesclam e coexistem junto ao  regionalismo de um Cramunhão da Garrafa ou a Vovó Mafalda, por exemplo. Tennyson mastiga e redefine uma nova roupagem para seres mitológicos, fazendo sua existência no Rio de Janeiro em 2018 ser plausível. Elementais da terra, súcubos, golems, fadas do dente, sacis, mapinguaris, dragões chineses, gárgulas, vampiros... Nah, os vampiros foram preservados. Algumas coisas são sagradas hehehe. A única alteração que os vampiros sofreram nessa história foi terem a aparência do José Serra e o modo de falar de Michel Temer, o que, na minha opinião, foi bem adequado.   




Já o protagonista Judas Cipriano, sob a ótica dos leitores de quadrinhos adultos, vai lembrar um doppelgänger do já famigerado John Constantine da Vertigo/DC Comics: Um especialista em demonologia e exorcismo, que é frequentemente compelido a manter o mundo nos eixos, servindo de antagonista a entidades perversas que querem acabar com a humanidade. Isso sem mencionar pelo menos dois blefes espetaculares na história, em situações sem escapatória nenhuma. Como Constantine, Cipriano se dá melhor na lábia, ou melhor, no caô, do que propriamente na magia. 

Sobretudos são inviáveis na Cidade Maravilhosa. Mas ter um taxista à disposição sempre é bom.
Arte de Tim Bradstreet.

Deuses Caídos chega com os dois pés na porta, pesado e arrebatador desde a primeira página, contando uma história de mistério sombria e grotesca, sem amarras ou restrições, e cativante até o final, que não brinca com a inteligência do leitor e ainda acena a possibilidade de um novo e ainda mais interessante recomeço. Pleno outubro, posso falar com tranquilidade que é uma das gratas surpresas de 2018. Quem ama Hellblazer, Hellboy, Clive Barker e Fantasia Dark em geral pode embarcar sem medo. É só entregar a alma...

“Deuses caídos mistura descrições bizarras com personagens inusitados e ajuda a criar um tenebroso imaginário brasileiro. Gabriel Tennyson é uma voz nova e original no terror nacional.” Raphael Montes




terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O PROBLEMA DOS TRÊS CORPOS, de Cixin Liu, ou "Ficção Científica de Gente Grande, Made in China".



Por RICARDO CAVALCANTI

Quando se fala em ficção científica, logo nos vêm à mente nomes como Isaac Asimov, Philip K. Dick, Arthur C. Clarke, etc. Esses autores fizeram suas histórias, criando seus universos e desenvolvendo uma identidade própria de linguagem que os distingue imediatamente. Possuem obras de qualidade incontestáveis e, por isso mesmo, merecem ser sempre lembrados, lidos e relidos. Mas eles não são os únicos. Ler os autores clássicos é sempre muito bom, mas a ficção científica continua em produção e apresentando novos autores, novas histórias sobre outros pontos de vista. Esse é o caso de Cixin Liu; esse escritor chinês que já ganhou vários prêmios por suas obras no seu país, começa a ganhar o mundo, sendo considerado por muitos, o novo Arthur C. Clarke. Confesso que ao ouvir alguém ser rotulado como um “novo-alguma-coisa”, me gera mais distanciamento que empatia. Para mim, soa mais como se esse “novo-alguma-coisa” não seja nada além de “um-velho-alguma-coisa-requentada”. Isso, com certeza, não é o caso de Cixin Liu. 
Engenheiro de formação, teve seu primeiro romance lançado em 2002 (The Devil's Brics). Antes disso, escreveu vários contos que fizeram parte de coletâneas de ficção científica em seu país. Seu quarto livro, O Problema dos Três Corpos, lançado na China em 2007, foi o primeiro a ser traduzido (em 2014) para o inglês e acabou se tornando o grande vencedor do Hugo Awards de 2015 na categoria Melhor Romance. Dessa forma, o autor chacoalha o mundo da ficção científica ocidental, chutando portas e mostrando a que veio. Pela primeira vez, nos 62 anos da premiação, o vencedor da principal categoria não teve sua obra escrita originalmente em língua inglesa.

O Prêmio Hugo é um dos mais importantes do gênero ficção científica e fantasia, tendo na sua lista de ganhadores, nomes como (além dos mencionados acima) Willian Gibson, Úrsula K. Le Guin, Neil Gaiman, além do indicado por quatro vezes, George R. R. Martin (o “Senhor Game of Thrones”). Caso queira ficar por dentro das obras indicadas (além de poder votar e sugerir algumas), você pode se tornar membro e ter acesso a todo material que concorre aos prêmios em todas as categorias. Para isso, precisa gastar seu inglês nórdico e 50 dólares por ano.
Ostentação

No ano em que Cixin Liu venceu a premiação, o Hugo Awards estava envolvido em uma grande polêmica. Um grupo de escritores ultraconservadores, os auto-proclamados “Sad Rabbid Puppies” (sério, o nome é esse), estavam se sentindo incomodados com a ascensão de autores fora do padrão “homem caucasiano heterossexual” (Cixin Liu, por ser Chinês, já estaria entre os excluídos). Para esses autores, qualquer um que não se enquadrasse nesse perfil, não deveria fazer parte da premiação. Ou seja: seus membros acreditam que restringir o acesso, seria uma forma de preservar esse tipo de literatura e que a premiação deveria privilegiar somente os que sempre foram privilegiados (!?). Mulheres, negros, latinos, asiáticos, etc, estariam acabando com a literatura de ficção científica. Vox Day (Theodore Beale), um dos lideres do Sad Rabbid Puppies, já fez textos dizendo que mulheres não deveriam ter o direito ao voto e que negros são selvagens. É um pensamento tão absurdamente sem sentido, que nem parece ter saído de um grupo de escritores desse gênero literário (e eu achando que a ascensão do pensamento retrógrado só estava acontecendo no Brasil).
Mas vamos botar de lado os entretanto e partir logo para os finalmente, como dizia Odorico Paraguaçu.

"O Problema dos Três Corpos", lançado esse ano pela editora Suma de Letras, é o primeiro de uma trilogia de grande sucesso na China, que vem ganhando o mundo e atraindo o foco para esse autor, que está conseguindo o respeito e a admiração do resto do planeta. Os outros dois exemplares da trilogia, The Dark Forest e Death’s End, ainda não possuem data de lançamento no Brasil.

  Já está em andamento a produção cinematográfica da adaptação do livro, programada para estrear em 2017. 
Filmagens da adaptação do livro
A trama se inicia no ano de 1967, durante a Revolução Cultural comandada por Mao Tsé Tung na China. Uma criança (Ye Wenjie) que assiste a morte de seu pai imposta pelos membros da revolução, acaba se tornando uma astrofísica de grande respeito, fazendo com que, no futuro, o regime necessitasse de alguém com o talento dela. Para isso, fazem uma oferta que ela não tem como recusar, no melhor estilo Don Corleone.
Mais de quarenta anos depois, um projeto militar ultrassecreto acaba enviando sinais para o espaço, a fim de conseguir contato com alguma civilização inteligente no universo (o método que eles desenvolvem para potencializar a capacidade de transmissão do sinal é sensacional!). Após alguns anos, chega uma resposta na forma de uma mensagem de alerta, que não era para ser respondida e que eles estariam à caminho da Terra. Mas o que esperar desse contato? Será que deveríamos nos preocupar? Com a descoberta de vida inteligente em outro planeta, alguns grupos consideram que essa poderia ser a salvação para a nossa civilização, enquanto outros acreditam que esse seria o nosso fim. Interesses escondidos em meio a discursos defendendo um lado ou outro, deixam os personagens sem saber exatamente em quem acreditar.

Arte conceitual do filme
O contato é recebido por um planeta Trissolaris, localizado em Alfa Centauro, há cerca de quatro anos luz da Terra. Uma civilização com sua existência ameaçada, vê na Terra a possibilidade de sua sobrevivência. Por um breve momento, podemos ver, inclusive, que o planeta possui problemas muito parecidos com os nossos, que influenciam diretamente na atitude alguns de seus habitantes. Mas será que esses trissolarianos viriam para viver conosco em harmonia, ou para nos dominar?
Enquanto isso, um especialista em nanomateriais (Wang Miao) conhece o jogo chamado O Problema dos Três Corpos, em que o jogador (trajando um Traje V que te dá pleno acesso) tem o objetivo de avançar pelas eras da nossa civilização, podendo esbarrar com reis de antigas dinastias na China, passando por Copérnico, até chegar a nomes como Albert Einstein, por exemplo. Todos sempre com um grande problema a resolver: precisam enfrentar situações em que o sol pode acabar com a vida no planeta em fração de segundos. Após ter contato com o jogo, Wang Miao começa a ver, em todos os lugares, uma inexplicável e misteriosa contagem regressiva. 

Neste ano, foi descoberta a existência de um planeta rochoso com características semelhantes a da Terra na constelação de Alfa Centauro (a mesma constelação do Trissolaris). Caso queira saber um pouco mais sobre a constelação que é tratada no livro e ter uma experiência mais imersiva, deem uma olhada nessas matérias, pois dão uma boa noção do planeta em que a história é ambientada. Sem contar que a trama ganha muito mais consistência, ao perceber que o autor não escolheu uma constelação aleatória sem propósito.
http://epoca.globo.com/vida/noticia/2016/08/descobriam-um-planeta-parecido-com-terra-ao-redor-da-estrela-mais-proxima-do-sol.html
O livro possui descrições detalhadas de alguns conceitos que poderiam, facilmente, tornar a leitura chata e cansativa. Definitivamente, esse não é o caso de O Problema dos Três Corpos. O que acontece é exatamente o contrário. O autor consegue transmitir uma fluência na leitura, te instigando a querer descobrir mais sobre todo o universo desenvolvido. Enquanto você lê, a riqueza de detalhes te deixa ainda mais inserido na história, compreendendo de forma mais ampla, não só a trama, mas as motivações e atitudes de cada personagem.


Não existe na obra, nenhum tipo de discurso ou crítica a modelos políticos e sociais. O autor não levanta bandeiras, nem faz denúncias ou alertas sobre a nossa realidade. Todos os elementos políticos servem apenas como pano de fundo para uma ficção científica pura e direta (e de excelente qualidade, diga-se de passagem).
Agora suba até a torre de transmissão, vista seu Traje V, acesse o www.3corpos.net e tente sobreviver aos desafios apresentados pelo jogo (Não, você não vai entrar. Você não tem o Traje V).