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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

DEUSES CAÍDOS, de Gabriel Tennyson, ou "Aqui no RJ se pronuncia "Conxxxxtantchine"!!!!"







Por EDUARDO CRUZ INVERTIDA



Quem nunca brincou com alguma coisa (supostamente) sobrenatural na adolescência, essa época da vida em que uma estranha mistura de fanfarronice, curiosidade e falta de noção se manifesta na molecada? Seja tentando contatar espíritos com um compasso, ou com o famigerado Jogo do Copo - a Ouija de pobre - ou comprando um livro de São Cipriano em um sebo qualquer, para, 15 minutos depois, devolver o livro horrorizado pelo conteúdo barra pesada do mesmo (Essa eu já fiz heheh. Mas ei, eu tinha só 14 anos!). E foi assim que o nome "Cipriano" ficou para sempre marcado na minha memória rsrsrs. Mas o que isso tem a ver com essa resenha???? Calma, continuem comigo e vão entender heheheheh... 

O livro São Cipriano que eu possuí.... por uns 15 minutos antes de arregar rs

Depois do perverso Ultra Carnem, de César Bravo, e do sangrento Jantar Secreto, de Raphael Montes, a literatura fantástica nacional acaba de ganhar mais um reforço. Gabriel Tennyson desponta com seu romance de estréia magnificamente macabro, envolvendo sociedades secretas, demônios e outros seres mitológicos, ambientado no Rio de Janeiro dos dias atuais e com uma trupe de personagens interessantes. 



Deuses Caídos é um thriller de mistério com toques de fantasia urbana e horror sobrenatural. Tudo começa com um misterioso serial killer que vem assassinando evangelistas famosos. E pior: O faz utilizando a Internet para veicular as atrocidades, com um público cada vez cruel e ávido por violência que vem crescendo a cada crime cometido - um sagaz comentário a respeito da perversidade que o anonimato concedido pela Internet confere. O assassino encarna uma figura messiânica que alega realizar uma justiça divina merecida pelas vítimas. Um detalhe: As atrocidades sugerem haver um elemento paranormal envolvido. Isso ameaça o trabalho desempenhado pela Sociedade de São Tomé, um braço da Igreja Católica responsável por manter secreta a existência de criaturas sobrenaturais vivendo entre nós, embora exista todo um submundo de criaturas místicas habitando a cidade do Rio de Janeiro e seus recônditos mais obscuros, da Vila Mimosa até a Ilha do Fundão, passando pela Lapa e Santa Tereza, a Cidade (já nem tão mais) Maravilhosa certamente é o personagem principal do livro.

 


O membro da Sociedade São Tomé encarregado da captura deste estranho assassino é o veterano Judas Cipriano, um padre badass descendente de São Cipriano (Aquele mesmo do livro de magia negra), que possui estranhos poderes sobrenaturais. Judas é o padre mais improvável possível: Boêmio, beberrão, usuário de substâncias tóxicas, frequentador assíduo dos pontos de travestis da Lapa, e com uma infância bizarra que envolvia maus tratos extremos por parte de seus estranhos pais. Uma espécie de John Constantine carioca. Cipriano é convocado para trabalhar como consultor da Polícia Civil na investigação - atentando para os aspectos sobrenaturais do crime, logicamente - e lhe é designado como assistente a policial Júlia Abdemi, que seria uma pessoa comum, não fosse por seu dom de se comunicar com máquinas (Coisa de uma HQ de Warren Ellis, mas que fica ainda melhor e mais brazuca depois de uma revelação lá no ato final). Juntos, os dois passarão por uma tour de force, durante quatro dias, revirando o submundo místico da Cidade Maravilhosa atrás de pistas para capturar o assassino. E tentando sobreviver às descobertas que realizam.

E aí? Impactados? Eu fiquei. Bastante.

O verdadeiro São Cipriano
Esse resumo faz o material parecer promissor, não? Um thriller urbano de investigação, com toques de fantasia macabra, muito gore, demonismo trevoso, releitura de seres mitológicos sob uma nova roupagem... Promissor é só o resumo mesmo. O livro em si é FODA. Deuses Caídos é provido de um ritmo narrativo impecável e um texto fluido. Algo impressionante, ainda mais se levando em conta que este é o primeiro livro de Tennyson. "Minhas influências visuais vieram de filmes como Silent Hill, Hellraiser, O Labirinto do Fauno e Seven - Os Sete Crimes Capitais. Se eu tivesse que definir o livro em uma frase, diria que é uma espécie de Hellboy tão violento quanto os filmes de Hannibal Lecter.", declarou o autor em uma entrevista.

Gabriel Tennyson

Nosso país é essencialmente pluricultural. Aqui, nesses últimos cinco séculos, tudo se misturou, se mesclou e foi sincretizado, desde os genes até a religião e o folclore, e Tennyson soube usar bem o que temos de mais rico: Essa infinidade de mitos, lendas e referências, inclusive sem perder o senso de contemporaneidade. Assim, referências da cultura de massa como X-Men, Star Wars, Arquivo X e o BvS de Zack Snyder se mesclam e coexistem junto ao  regionalismo de um Cramunhão da Garrafa ou a Vovó Mafalda, por exemplo. Tennyson mastiga e redefine uma nova roupagem para seres mitológicos, fazendo sua existência no Rio de Janeiro em 2018 ser plausível. Elementais da terra, súcubos, golems, fadas do dente, sacis, mapinguaris, dragões chineses, gárgulas, vampiros... Nah, os vampiros foram preservados. Algumas coisas são sagradas hehehe. A única alteração que os vampiros sofreram nessa história foi terem a aparência do José Serra e o modo de falar de Michel Temer, o que, na minha opinião, foi bem adequado.   




Já o protagonista Judas Cipriano, sob a ótica dos leitores de quadrinhos adultos, vai lembrar um doppelgänger do já famigerado John Constantine da Vertigo/DC Comics: Um especialista em demonologia e exorcismo, que é frequentemente compelido a manter o mundo nos eixos, servindo de antagonista a entidades perversas que querem acabar com a humanidade. Isso sem mencionar pelo menos dois blefes espetaculares na história, em situações sem escapatória nenhuma. Como Constantine, Cipriano se dá melhor na lábia, ou melhor, no caô, do que propriamente na magia. 

Sobretudos são inviáveis na Cidade Maravilhosa. Mas ter um taxista à disposição sempre é bom.
Arte de Tim Bradstreet.

Deuses Caídos chega com os dois pés na porta, pesado e arrebatador desde a primeira página, contando uma história de mistério sombria e grotesca, sem amarras ou restrições, e cativante até o final, que não brinca com a inteligência do leitor e ainda acena a possibilidade de um novo e ainda mais interessante recomeço. Pleno outubro, posso falar com tranquilidade que é uma das gratas surpresas de 2018. Quem ama Hellblazer, Hellboy, Clive Barker e Fantasia Dark em geral pode embarcar sem medo. É só entregar a alma...

“Deuses caídos mistura descrições bizarras com personagens inusitados e ajuda a criar um tenebroso imaginário brasileiro. Gabriel Tennyson é uma voz nova e original no terror nacional.” Raphael Montes




quinta-feira, 4 de maio de 2017

ENCHEÇÃO DE LINGÜIÇA DO BEM #006: “SÍNDROME”, de Cesar Bravo




Salve, seus alucinados!!



Demos uma breve parada nas resenhas pra dar aquela enchida de lingüiça que deixa a turminha feliz, porque Encheção de lingüiça na Zona Negativa é uma pausa pra ler um conto, e sempre de alto nível!




O alvo da vez é nosso chégas, o escritor César Bravo. O autor do excelente Ultra Carnem – resenha completa aqui – já era conhecido há bastante tempo na rede por ter lançado vários contos em algumas coletâneas. “Síndrome” é um de seus contos mais recentes, e que temos orgulho de publicar aqui, saído do forno! Deliciosamente insano e violento, - e os freaks leitores de HQs vão sentir uma pegada do "Crossed" de Garth Ennis nele -  o conto mostra a facilidade de Bravo para criar cenários extremamente perturbadores e situações sem saída ou qualquer esperança de uma resolução feliz. Otimistas, estejam  avisados!


Um livro infernal.



Então sem mais delongas, fiquem com essa pérola sangrenta do cancioneiro nacional, e até o próximo post!




Síndrome
César Bravo, 2017



Não sei ao certo como cheguei até aqui. Meu estômago está embrulhado, minha boca está seca e pastosa. Meus olhos não enxergam com clareza. Cada pedaço da vida se tornou tortuoso, permeado por perseguições, revolta e fúria. Não confio em ninguém, minhas costas doem, às vezes perco o controle da bexiga. Quando penso no futuro, vejo um poço sem fundo, um caminho sem luz, uma miséria sem volta.


A cidade cheirando à fuligem e lixo não parece capaz de me ajudar. Suas esquinas sequestram desesperados desabrigados; cães, gatos e ratos são o novo alimento das ruas. Os arranha-céus sorriem de minha insignificância, albergando os homens ricos que têm a triste (?) sorte de se manterem ilesos.


Como muitos, desde o início do que pareceu um quadro depressivo, estive em todos os consultórios médicos da cidade. Cardiovasculares, Neurologistas, Psiquiatras, Psicólogos. Frequentei todas as igrejas, templos e terreiros, usei os medicamentos que pude comprar, gastei meu estômago e meus joelhos no chão; exatamente como me orientaram a fazer. Meu desespero aumentou há dois meses, quando percebi que não era o único. 

Em meu trabalho, meu melhor amigo perdeu a capacidade de dormir. Esse foi o primeiro passo. Em seguida ele se tornou violento, por fim, em um surto da Síndrome, atacou nosso chefe e o enviou ao ambulatório, com a mandíbula quebrada em dois lugares. Não sendo um homem violento (não naquela época), eu preferi o que era certo: procurei ajuda.


Benzodiazepínicos, Clonazepam, Litium, Valium, Lexapro. 


Os medicamentos me levaram a uma espécie de torpor, onde o ontem e o hoje se misturavam, condenando o amanhã. Anestesiado como estava, perdi a confiança de meus amigos, perdi meu emprego — ainda sem imaginar que todos os meus colegas teriam um mesmo diagnóstico em poucos dias.


Ninguém sabe ao certo como a Síndrome começou a afetar a cidade toda — pelas notícias da TV, o mundo todo.


Pessoas se arrastam, as contas do estado estão no vermelho. A violência dá o tom da mudança. 


Semana passada, meu vizinho destruiu um carro de propagandas que o acordou antes do relógio. O “homem das pamonhas” tentou reagir, apanhando um bastão escondido sob um dos bancos. Meu vizinho tinha uma arma, não é difícil supor o resto da história.


Longe das ruas, as casas de repouso e presídios estão abarrotados de corpos confusos e instáveis. Quem tem dinheiro ocupa a primeira, o segundo é o hotel dos pobres. Estima-se que 32% da cidade esteja encarcerado, sob o domínio da Síndrome.


Surgiram várias hipóteses sobre o que parece ser um surto global de estresse e violência. Agrotóxicos, um novo vírus, vibriões; eu acredito na hipótese mais aceitável: a dificuldade em se adequar a uma sociedade fatigada pela pressão. Alguém sugeriu, em uma revista de pouca expressão, que pode ser culpa do alinhamento de alguns planetas, da regência de Saturno, e que uma dessas besteiras de algum modo afetou a maneira que as pessoas enxergam o mundo. Eu penso que só agora enxergamos a verdade — e ela existe em nós desde que o primeiro macaco falou.


As empresas e instituições seguem aos tropeços, com um quadro de funcionários cada vez menor; há fome e desemprego em todos os cantos. Exércitos igualmente adoecidos ocupam as ruas há meses, o consumo de drogas ilícitas superou o tabaco e o álcool.


Estamos em 2028. O sol brilha como um inferno suspenso nos ares, transpiramos o tempo todo, nossas casas não têm energia, a água tratada foi dividida por cotas.



Estou sentado em um praça aqui da cidade, respirando profundamente. A igreja destruída ainda rui à minha frente. Observo seis ou sete pessoas (é difícil contar à distância, meus olhos não enxergam muito bem) entrando em uma discussão. O motivo, não sei claramente, mas duvido que exista algum. A verdade é que todos querem um rosto para bater, uma carne para rasgar. Querem, de algum modo, transferirem parte da dor e agonia que sentem para outra pessoa.


Seguido do estado de apatia inicial, surge a histeria. É o que está acontecendo com aqueles caras. O motivo pode ser um olhar atravessado, uma sensação de perseguição, o rosto feliz de quem ainda não foi afetado pela Síndrome.


Todos estão furiosos.


Daqueles seis — seis não, sete (agora consigo enxergar) —, dois estão no chão. Suas cabeças são pisoteadas pelos outros cinco. Um dos agressores é uma menina, não deve ter mais de quinze anos. Mas ela tem saliva pelo queixo e uma corrente ensanguentada nas mãos. Ela bate contra o homem caído ao chão e rasga sua pele, o outro se levanta e foge. Um dos outros agressores, um homem com a farda da polícia, se afasta e sorri, ciente que um corpo em sete é um bom número nos últimos tempos. Mas ele não resiste, e logo se junta aos outros para golpear o homem que não conseguiu se levantar e correr. O infeliz ao chão não tem mais um rosto. Seu terno está rasgado e sujo de sangue, sua virilha, molhada de urina. Tem algo vazando pela parte de trás de sua cabeça.


Sinto um impulso repugnante de sorrir, e eu bem sei o que significa.


Quando você tem a Síndrome, quando sua vida perdeu o cheiro e a graça, tudo o que resta é a dor dos outros. Porque dói menos quando alguém sobre mais. Procuro em meus bolsos alguma medicação que nunca serviu para merda nenhuma. Antes, encontro minha pistola, presente do meu avô, que nunca a usou para nada melhor que encher uma gaveta. Eu resisto, mas então sinto uma dor aguda no canto direito da cabeça. Golpeio o ponto algumas vezes, sentindo que a dor só aumenta. Um silvo agudo toca e supera os gritos e gemidos da praça. Mas quando envolvo a arma com minhas mãos trêmulas, meu cérebro quase sorri, tudo vai embora, o mundo se cala.


Penso no policial, penso na garota com a corrente ensanguentada nas mãos, penso no homem tatuado que está ao lado, arqueado, recuperando o fôlego com as mãos apoiadas nos joelhos. Os outros não são interessantes, eles parecem satisfeitos com o espancamento e começam a se afastar. Mas os olhos dos três restantes ainda têm traços de sangue, hipervascularizados, isso sempre acontece quando a Síndrome te pega de jeito. Escondendo minha arma na cintura, assovio para eles. Meu cérebro sorri, minha apatia me deixa em paz por alguns segundos. Sei do que preciso agora. Uma canção antiga começa a tocar dentro de mim. Pode ser One in A Million, do Guns and Roses. Penso na minha esposa. Minha pequena também tem a Síndrome, ela está trancada no porão da minha casa há duas semanas, fui obrigado a isso quando ela tentou me esfaquear.


“Depressão”, eles disseram.


“Estresse”, eles disseram.


“Ansiedade”, eles disseram.


Mas eu sei o que a Síndrome significa. Apatia, ódio, involução, extinção. Imagino que a humanidade tenha seguido a direção errada, que nossas mentes estejam poupando a terra mãe de nossa influência cancerígena. E nós sabemos o que deve ser corrigido, chamem de empatia se quiserem. Mas a dor é mais forte; o ímpeto, a vontade de prevalecer e ser mais forte.


Eles estão vindo, e é como se a dor e a ansiedade fossem substituídas por serotonina. De repente minha arma torna-se um Deus. E eu, seu anjo vingador. Hora de executar uma decisão, penso. E me preparo para matar ou ser morto, voltando a essência selvagem da qual fomos feitos. A Síndrome vence outra vez. Sem alarde, sem resistência, sem diagnósticos precisos ou curas possíveis. Seus únicos analgésicos são o ódio e o suicídio, e consigo ser grato por não ter vocação à morte.


As armas disparam, a corrente voa pelos ares, alguém perde meia dúzia de dentes.


No fim, não importa o resultado final.


Estamos sorrindo.










terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

ENCHEÇÃO DE LINGUIÇA DE CARNAVAL: "O BEBÊ DE TARLATANA ROSA", de João do Rio






ALALAÔ, GALERA!!!

De passagem aqui só para deixar um conto temático pros foliões da Zona Negativa. Seu autor: Paulo Barreto, mais conhecido como João do Rio. Esse repórter e escritor carioca do início do século XX, com seu estilo de prosa pré-modernista e bastante ácida para os padrões da época, foi o cronista do lado feio da cidade. Suas histórias mostram os vagabundos, os atormentados, as prostitutas, os marginalizados e o grotesco em geral, mas também os dândis e os barões, dentro dos salões nobres de clubes ilustres. O lado oculto, tanto da sociedade burguesa carioca, quanto dos terreiros e cortiços. Tudo com uma bela dose de realismo e repugnância.

João do Rio

Parte integrante do livro "Dentro da Noite", de 1910, em "O bebê de tarlatana rosa" acompanhamos Heitor de Alencar, um dândi (que é como seu bisavô chamava os plêiba) narrando a seus companheiros no clube social a respeito de uma incursão aos antros mais sórdidos possíveis de se visitar durante os quatro dias de carnaval, um flerte de carnaval que não saiu como o esperado, o reverso da luxúria, e fantasias que escondem bem mais do que gostaríamos de descobrir...

Então, muita atenção às bagunças no carnaval amiguinhos. Às vezes, a luxúria carnavalesca pode te levar a beijar um menino achando que é menina, ou vice versa. Mas lendo esse conto, vem à mente aquele velho ditado: nada está tão ruim que não possa piorar...

O quê? tá de ressaca e não consegue ler? 
As letras não param de se mexer na tela? 
Ok, então deixe o Abujamra declamar o conto pra você!




O BEBÊ DE TARLATANA ROSA
João do Rio, 1910


- Oh! uma história de máscaras! quem não a tem na sua vida? O carnaval só é interessante porque nos dá essa sensação de angustioso imprevisto... Francamente. Toda a gente tem a sua história de carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias atrozes. Um carnaval sem aventuras não é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura...
E Heitor de Alencar esticava-se preguiçosamente no divã, gozando a nossa curiosidade.
Havia no gabinete o barão Belfort, Anatólio de Azambuja de que as mulheres tinham tanta implicância, Maria de Flor, a extravagante boêmia, e todos ardiam por saber a aventura de Heitor. O silêncio tombou expectante. Heitor, fumando um gianaclis autêntico, parecia absorto.
- É uma aventura alegre? indagou Maria.
- Conforme os temperamentos.
- Suja?
- Pavorosa ao menos.
- De dia?
- Não. Pela madrugada.
- Mas, homem de Deus, conta! suplicava Anatólio. Olha que está adoecendo a Maria.
Heitor puxou um largo trago à cigarreta.
- Não há quem não saia no Carnaval disposto no excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias. O desejo, quase doentio é como incutido, infiltrado pelo ambiente. Tudo respira luxúria, tudo tem da ânsia e do espasmo, e nesses quatro dias paranóicos, de pulos, de guinchos, de confianças ilimitadas, tudo é possível. Não há quem se contente com uma...
- Nem com um, atalhou Anatólio.
- Os sorrisos são ofertas, os olhos suplicam, as gargalhadas passam como arrepios de urtiga pelo ar. É possível que muita gente consiga ser indiferente. Eu sinto tudo isso. E saindo, à noite, para a pornéia da cidade, saio como na Fenícia saíam os navegadores para a procissão da Primavera, ou os alexandrinos para a noite de Afrodita.
- Muito bonito! ciciou Maria de Flor.
- Está claro que este ano organizei uma partida com quatro ou cinco atrizes e quatro ou cinco companheiros. Não me sentia com coragem de ficar só como um trapo no vagalhão de volúpia e de prazer da cidade. O grupo era o meu salva-vidas. No primeiro dia, no sábado, andávamos de automóvel a percorrer os bailes. Íamos indistintamente beber champagne aos clubes de jogo que anunciavam bailes e aos maxixes mais ordinários. Era divertidíssimo e ao quinto clube estávamos de todo excitados. Foi quando lembrei uma visita ao baile público do Recreio. - "Nossa Senhora! disse a primeira estrela de revistas, que ia conosco. Mas é horrível! Gente ordinária, marinheiros à paisana, fúfias do pedaços mais esconsos da rua de S. Jorge, um cheiro atroz, rolos constantes..." - Que tem isso? Não vamos juntos?"
Com efeito. Íamos juntos e fantasiadas as mulheres. Não havia o que temer e a gente conseguia realizar o maior desejo: acanalhar-se, enlamear-se bem. Naturalmente fomos e era desolação com pretas beiçudas e desdentadas esparrimando belbutinas fedorentas pelo estrado da banda militar, todo o pessoal de azeiteiros das ruelas lôbregas e essas estranhas figuras de larvas diabólicas, de íncubos em frascos de álcool, que têm as perdidas de certas ruas, moças, mas com os traços como amassados e todas pálidas, pálidas feitas de pasta de mata-borrão e de papel-arroz. Não havia nada de novo. Apenas, como o grupo parara diante dos dançarinos, eu senti que se roçava em mim, gordinho e apetecível, um bebê de tarlatana rosa. Olhei-lhe as pernas de meia curta. Bonitas. Verifiquei os braços, o caído das espáduas, a curva do seio. Bem agradável. Quanto ao rosto era um rostinho atrevido, com dois olhos perversos e uma boca polpuda como se ofertando. Só postiço trazia o nariz, um nariz tão bem-feito, tão acertado, que foi preciso observar para verificá-lo falso. Não tive dúvida. Passei a mão e preguei-lhe um beliscão. O bebê caiu mais e disse num suspiro: - ai que dói! Estão vocês a ver que eu fiquei imediatamente disposto a fugir do grupo. Mas comigo iam cinco ou seis damas elegantes capazes de se debochar mas de não perdoar os excessos alheios, e era sem linha correr assim, abandonando-as, atrás de uma freqüentadora dos bailes do Recreio. Voltamos para os automóveis e fomos cear no clube mais chic e mais secante da cidade.
- E o bebê?
- O bebê ficou. Mas no domingo, em plena Avenida, indo eu ao lado do chauffeur; no burburinho colossal, senti um beliscão na perna e urna voz rouca dizer: "para pagar o de ontem". Olhei. Era o bebê rosa, sorrindo, com o nariz postiço, aquele nariz tão perfeito. Ainda tive tempo de indagar: aonde vais hoje?
- A toda parte! respondeu, perdendo-se num grupo tumultuoso.
- Estava perseguindo-te! comentou Maria de Flor.
- Talvez fosse um homem... soprou desconfiado o amável Anatólio.
- Não interrompam o Heitor! fez o barão, estendendo a mão.
Heitor acendeu outro gianaclis, ponta de ouro, continuou:
- Não o vi mais nessa noite e segunda-feira não o vi também. Na terça desliguei-me do grupo e cai no mar alto da depravação, só, com uma roupa leve por cima da pele e todos os maus instintos fustigados. De resto a cidade inteira estava assim. É o momento em que por trás das máscaras as meninas confessam paixões aos rapazes, é o instante em que as ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade é dúbia e todos nós a achamos inútil, a honra uma caceteação, o bom senso uma fadiga. Nesse momento tudo é possível, os maiores absurdos, os maiores crimes; nesse momento há um riso que galvaniza os sentidos e o beijo se desata naturalmente.
Eu estava trepidante, com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida. Nada de raparigas do galarim perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato familiar, mas o deboche anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar, acabar, continuar. Era ignóbil. Felizmente muita gente sofre do mesmo mal no carnaval.
- A quem o dizes!... suspirou Maria de Flor.
- Mas eu estava sem sorte, com a guigne, com o caiporismo dos defuntos índios. Era aproximar-me, era ver fugir a presa projetada. Depois de uma dessas caçadas pelas avenidas e pelas praças, embarafustei pelo S. Pedro, meti-me nas danças, rocei-me àquela gente em geral pouco limpa, insisti aqui, ali. Nada!
- É quando se fica mais nervoso!
- Exatamente. Fiquei nervoso até o fim do baile, vi sair toda gente, e saí mais desesperado. Eram três horas da manhã. O movimento das ruas abrandara. Os outros bailes já tinham acabado. As praças, horas antes incendiadas pelos projetores elétricos e as cambiantes enfumadas dos fogos de bengala, caiam em sombras - sombras cúmplices da madrugada urbana. E só, indicando a folia, a excitação da cidade, um ou outro carro arriado levando máscaras aos beijos ou alguma fantasia tilintando guizos pelas calçadas fofas de confete. Oh! a impressão enervante dessas figuras irreais na semi-sombra das horas mortas, roçando as calçadas, tilintando aqui, ali um som perdido de guizo! Parece qualquer coisa de impalpável, de vago, de enorme, emergindo da treva aos pedaços... E os dominós embuçados, as dançarinas amarfanhadas, a coleção indecisa dos máscaras de último instante arrastando-se extenuados! Dei para andar pelo largo do Rocio e ia caminhando para os lados da secretaria do interior, quando vi, parado, o bebê de tarlatana rosa.
Era ele! Senti palpitar-me o coração. Parei.
- "Os bons amigos sempre se encontram" disse.
O bebê sorriu sem dizer palavra. Estás esperando alguém? Fez um gesto com a cabeça que não. Enlacei-o. - Vens comigo? Onde? indagou a sua voz áspera e rouca. - Onde quiseres! Peguei-lhe nas mãos. Estavam úmidas mas eram bem tratadas. Procurei dar-lhe um beijo. Ela recuou. Os meus lábios tocaram apenas a ponta fria do seu nariz. Fiquei louco.
- Por pouco...
- Não era preciso mais no Carnaval, tanto mais quanto ela dizia com a sua voz arfante e lúbrica: - "Aqui não!" Passei-lhe o braço pela cintura e fomos andando sem dar palavra. Ela apoiava-se em mim, mas era quem dirigia o passeio e os seus olhos molhados pareciam fruir todo o bestial desejo que os meus diziam. Nessas fases do amor não se conversa. Não trocamos uma frase. Eu sentia a ritmia desordenada do meu coração e o sangue em desespero. Que mulher! Que vibração! Tínhamos voltado ao jardim. Diante da entrada que fica fronteira à rua Leopoldina, ela parou, hesitou. Depois arrastou-me, atravessou a praça, metemo-nos pela rua escura e sem luz. Ao fundo, o edifício das Belas-Artes era desolador e lúgubre. Apertei-a mais. Ela aconchegou-se mais. Como os seus olhos brilhavam! Atravessamos a rua Luís de Camões, ficamos bem embaixo das sombras espessas do Conservatório de Música. Era enorme o silêncio e o ambiente tinha uma cor vagamente ruça com a treva espancada um pouco pela luz dos combustores distantes. O meu bebê gordinho e rosa parecia um esquecimento do vicio naquela austeridade da noite. - Então, vamos? indaguei. - Para onde? - Para a tua casa. - Ah! não, em casa não podes... - Então por aí. - Entrar, sair, despir-me. Não sou disso! - Que queres tu, filha? É impossível ficar aqui na rua. Daqui a minutos passa a guarda. - Que tem? - Não é possível que nos julguem aqui para bom fim, na madrugada de cinzas. Depois, às quatro tens que tirar a máscara. - Que máscara? - O nariz. - Ah! sim! E sem mais dizer puxou-me. Abracei-a. Beijei-lhe os braços, beijei-lhe o colo, beijei-lhe o pescoço. Gulosamente a sua boca se oferecia. Em torno de nós o mundo era qualquer coisa de opaco e de indeciso. Sorvi-lhe o lábio.
Mas o meu nariz sentiu o contato do nariz postiço dela, um nariz com cheiro a resina, um nariz que fazia mal. - Tira o nariz! - Ela segredou: Não! não! custa tanto a colocar! Procurei não tocar no nariz tão frio naquela carne de chama.
O pedaço de papelão, porém, avultava, parecia crescer, e eu sentia um mal-estar curioso, um estado de inibição esquisito. - Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois não te disfarça nada. - Disfarça sim! - Não! procurei-lhe nos cabelos o cordão. Não tinha. Mas abraçando-me, beijando-me, o bebê de tarlatana rosa parecia uma possessa tendo pressa. De novo os seus lábios aproximaram-se da minha boca. Entreguei-me. O nariz roçava o meu, o nariz que não era dela, o nariz de fantasia. Então, sem poder resistir, fui aproximando a mão, aproximando, enquanto com a esquerda a enlaçava mais, e de chofre agarrei o papelão, arranquei-o. Presa dos meus lábios, com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinante - uma caveira com carne...
Despeguei-a, recuei num imenso vômito de mim mesmo. Todo eu tremia de horror, de nojo. O bebê de tarlatana rosa emborcara no chão com a caveira voltada para mim, num choro que lhe arregaçava o beiço mostrando singularmente abaixo do buraco do nariz os dentes alvos. - Perdoa! Perdoa! Não me batas. A culpa não é minha! Só no Carnaval é que eu posso gozar. Então, aproveito, ouviste? aproveito. Foste tu que quiseste...
Sacudi-a com fúria, pu-la de pé num safanão que a devia ter desarticulado. Uma vontade de cuspir, de lançar apertava-me a glote, e vinha-me o imperioso desejo de esmurrar aquele nariz, de quebrar aqueles dentes, de matar aquele atroz reverso da Luxúria... Mas um apito trilou. O guarda estava na esquina e olhava-nos, reparando naquela cena da semitreva. Que fazer? Levar a caveira ao posto policial? Dizer a todo o mundo que a beijara? Não resisti. Afastei-me, apressei o passo e ao chegar ao largo inconscientemente deitei a correr como um louco para a casa, os queixos batendo, ardendo em febre.
Quando parei à porta para tirar a chave, é que reparei que a minha mão direita apertava uma pasta oleosa e sangrenta. Era o nariz do bebê de tarlatana rosa...
Heitor de Alencar parou, com o cigarro entre os dedos, apagado. Maria de Flor mostrava uma contração de horror na face e o doce Anatólio parecia mal. O próprio narrador tinha a camarinhar-lhe a fronte gotas de suor. Houve um silêncio agoniento. Afinal o barão Belfort ergueu-se, tocou a campainha para que o criado trouxesse refrigerantes e resumiu:
- Uma aventura, meus amigos, uma bela aventura. Quem não tem do Carnaval a sua aventura? Esta é pelo menos empolgante.
E foi sentar-se ao piano.






BOM CARNAVAL!



domingo, 22 de janeiro de 2017

ULTRA CARNEM, de César Bravo, ou "Tudo que eu quiser, o cara lá de baixo vai me dar!"









Por EDUARDO "A BESTA" CRUZ



"Na disputa entre o Céu e o Inferno nós somos o prato principal"



Quem gosta do gênero de horror sofre. Encontrar, independente da nacionalidade, um bom autor de histórias de horror, e eu digo horror com tutano (grafismo e violência - dentro do contexto, claro), dentes (mais gore e violência por favor!) e espinhos (uma dose de crítica social, sempre!) é um tanto quanto trabalhoso. Quem, como eu, está sempre procurando novidades nesse gênero, às vezes esbarra em becos sem saída, falsas promessas e narrativas que estão aquém das expectativas e hypes. Frustrante? Bastante. Ninguém gosta de chegar ao final de um livro (ou uma HQ) e se dar conta que as horas investidas passeando por aquela obra poderiam ser bem melhor empregadas lendo alguma outra. Mesmo assim, seja na música, cinema, literatura, os tiros no escuro têm que ser dados, o empreendedorismo para conhecer as novidades não pode morrer. Aos teimosos que não têm medo de arriscar pegar algo para ler, escutar ou assistir, conhecendo pouco ou nada a respeito da obra/autor, a recompensa às vezes chega na forma de excelentes surpresas.

Peguemos como exemplo o autor César Bravo: Esse paulista  de Monte Alto publica seus contos há bastante tempo de forma independente (mais em facebook.com/cesarbravoautor, ou no blog coisasdobravo.blogspot.com.br), mas "Ultra Carnem" é seu primeiro livro físico. Não que ele precisasse disso para obter reconhecimento e estabelecer uma base de fãs, coisas que Bravo já conquistou há bastante tempo. Com seu estilo que reverencia mestres como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Clive Barker, mas ao mesmo tempo situa o leitor num cotidiano bem brasileiro, e sem maneirar na violência e em imagens intensas e pavorosas, não é de se admirar que esse autor esteja cada vez mais em evidência. Com este primeiro lançamento do autor pela Darkside Books, César Bravo dá um sopro de vida em um subgênero pra lá de esgotado e batido do horror - o satanismo e a demonologia - e devolve todo o grafismo, crueldade e perversidade que esse nicho da literatura de horror exige - e merece.




1 - O ABANDONO:
"Havia alguém ali. A figura conseguia ser mais negra que a noite. Era alta, ocupava toda a abertura do vão da porta. A coisa também tinha olhos. Eram intensos, brilhavam como brasa. Notando o padre mais perto, o visitante recuou um passo para fugir da luz. Apesar do medo que sentia, do coração aos pulos dentro do peito, Giordano avançou em sua direção"

Ultra Carnem (do latim "além da carne") se passa na cidade de Três Rios, interior de São Paulo. o livro é estruturado em quatro partes, mais um epílogo que amarra toda a trama. Tudo começa quando Vladimir Lester, um menino cigano, é enviado ao orfanato da cidade, aos cuidados do Padre Giordano. O menino foi expulso de sua tribo por razões desconhecidas para o padre, porém nada aparenta para ter merecido tal sina. Lester é introspectivo e não se integra com os outros meninos, e prefere ficar confinado em um quarto, com suas pinturas e esculturas. O menino utiliza uma misteriosa tinta para produzir suas pinturas, e o sentimento de xenofobia por parte de outras crianças do orfanato acaba culminando em um trágico episódio de bullying onde tomamos conhecimento do Mal que Vladimir Lester traz consigo. As consequências deste conto de abertura, um flashback no início do século XIX, irão reverberar através de todo o restante da história. 


2 - GÊNESIS:
"Nôa ainda estava à janela. Olhava para o lado de fora, para as formigas proletárias que trafegavam esperando um pé divino vir pisoteá-las. Crianças, velhos, adultos - eram todos feitos da mesma argamassa: aceitação e agonia."

No conto seguinte, já nos dias atuais, conhecemos Nôa, um jovem pintor sem talento, obcecado com a história do menino cigano pintor. Nôa roubou um livro em uma loja de curiosidades que contava fragmentos da  tenebrosa história de Vladimir Lester, e no ápice de sua obsessão, (digna de um personagem de H.P. Lovecraft, daqueles que só param quando já viram demais, e já estão à beira da insanidade), empreende uma caça aos artefatos do menino: as pinturas, a escultura da ciganinha - a relíquia favorita do garoto, e sua tinta especial. Seguindo pistas e investigando os fatos do passado, Nôa segue em uma caça ao tesouro diabólica neste conto, que flui ainda melhor que a abertura do livro, com um clímax que não deixa a desejar.


3 - O PAGAMENTO:
"Ele a usou como lata de lixo, santo Deus!
O tórax era mantido separado por uma trava de volante. Lá dentro, havia papel, latas de cerveja e guimbas de cigarros. O Açougueiro até defecou dentro dela. "

Neste terceiro conto acompanhamos Marcos, um técnico de informática à beira da falência, que mal consegue sustentar sua mulher, com a qual já não se entende mais, e seu filho Randy (em homenagem ao guitarrista Randy Rhoads), portador de necessidades especiais. Após realizar um serviço de reparos para uma lojinha de curiosidades - a mesma onde Nôa rouba o livro no conto anterior - sua dona, não tendo o dinheiro que Marcos lhe pede pelo serviço prestado, o paga de outra forma. Logo, Marcos consegue tudo que sempre desejou. Mas suspeita que o preço seja alto demais. Nessa história, Bravo exercita seu lado Clive Barker e nos dá cenas repugnantes, perpetradas pelo personagem conhecido como "O açougueiro". Cada vez que O Açougueiro aparece, o livro sobe para censura 90 anos, como se pode constatar no trecho ali em cima. Mais um conto onde não paramos de virar as páginas até chegar a seu ápice sangrento e arrepiante.


4 - O INFERNO:
"- Quem são eles? - perguntou, notando que os homens dentro da cela continuavam acuados.
- Negociantes.  Estão aqui embaixo porque passaram a perna em todo mundo lá em cima. Aqui você tem corruptos,  advogados inescrupulosos, investidores da bolsa, traficantes de mulheres... Não os borra-botas que sujam as mãos. Eles são os cabeças, se é que você me entende. Lá em cima, eles só tinham ouro e poder, aqui embaixo só tem uns aos outros. Eles discutem o tempo todo. Quase sempre a discordância evolui para a violência. É quando fica mais engraçado. Eles se mordem, furam os próprios olhos com suas canetas caras, depois acordam e fazem tudo outra vez. De novo, de novo e de novo."

Na quarta e última parte do livro vemos que os três contos anteriores se entrelaçam e desembocam neste aqui. Lucrécia, uma garçonete que escuta uma conversa que não deveria ser escutada por ninguém deste mundo, acaba sendo cooptada pelo próprio Diabo para auxiliar o Inferno a angariar almas e voltar a equilibrar a disputa com a concorrência. Lucrécia, que teve uma vida amarga e plena de sofrimentos, tragédias pessoais e escolhas erradas, aceita servir a Lúcifer por não simpatizar com o outro lado, por se sentir abandonada por Deus a sua vida inteira. Aprendemos que temos que nos levantar e recomeçar quando caímos, mas Lucrécia teve uma vida inteira de quedas brutais, até esta queda derradeira ao inferno. Nesse conto, Bravo solta a imaginação e vemos infernos dentro de infernos, amálgamas culturais do submundo, como funcionam as hierarquias, suas criaturas, a motivação de Lúcifer e suas legiões para desempenharem seu trabalho sem fim e até o destino de alguns personagens que apareceram nos contos anteriores.


5 - OS TRÊS REINOS:

O epílogo de "Ultra Carnem" fecha as pontas soltas dos protagonistas restantes, porém deixando um gancho sem forçar a barra para um possível retorno. Se foi intenção do autor, aguardemos por isso com prazer. Afinal, o Inferno está sempre querendo aumentar o número de seus ocupantes...



Apesar de certos momentos um tanto quanto previsíveis - como a identidade do personagem Lúcio, a narrativa é bastante fluida e o autor constrói com facilidade e desenvoltura tanto seus personagens quanto cenários extremamente críveis, o que facilita ainda mais a imersão nesse mistério macabro de quase 400 páginas. Do hotel barato de periferia sujo, insalubre e perigoso, e acredite, Bravo descreveu um com perfeição (não pergunte como sei disso - Ok, só digo uma coisa: Rua das Marrecas, RJ kkk) até o Inferno multicultural e amalgamado com muita competência no último conto, César Bravo nos leva com tremenda facilidade ao longo de sua história, suas linhas de tempo, dimensões infernais ou uma árida cidadezinha "no cu do mundo" sem se perder, nem perder o interesse do leitor. Os personagens são desenvolvidos ao ponto de este não ser um livro de horror gratuito. Ou melhor, o horror se passa em níveis diversos que não só o horror gráfico descrito em suas páginas. Vemos horror na história de Lester, que reflete a xenofobia, em especial o preconceito com o povo cigano, ou o horror do abandono infantil na realidade do orfanato, ou ainda a dificuldade que é viver de arte em nosso país, dilema que Nôa enfrenta antes de ser tocado pelo inferno. Ou ainda Lucrécia, que reflete a profunda descrença, desânimo e cinismo frente às porradas que a vida dá. Não raro as motivações dos protagonistas esbarram diversas vezes nos pecados capitais da Divina Comédia, de Dante, o que gera um sentimento ambíguo durante a leitura, já que apesar de haver a possibilidade de se apegar a esse ou aquele personagem, talvez todos estejam invariavelmente condenados.

A parte gráfica do livro é o "Padrão Darkside": muito capricho e tudo pensado em perfeito alinhamento com a temática da história, com símbolos pagãos e desenhos que parecem saídos de manuais medievais de demonologia entre os contos, e na parte interna das capas uma pintura que lembra Bosch, com seu "Jardim das delícias terrenas", mas só a parte do Inferno, claro rs. O simples manuseio de "Ultra Carnem" não é para os fracos de estômago ou de espírito. 




Bosch feelings...
Por um instante achei que tinha o livro de São Cipriano nas mãos. De novo.


Aceitem um conselho: não leiam nada dessas páginas intermediárias em voz alta


E se você acha que o Diabo não é tão feio quanto pintam, é porque não viu o Diabo pintado por Vladimir Lester, ou melhor, pelo César Bravo!

Ah, e quando for começar a leitura, não esqueça de ligar na playlist do Spotify, elaborada pelo próprio autor, para uma imersão completa em sua viagem ao inferno...




Por hoje é só, pe-pe-pessoal!!!